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A imagem abaixo, por mais simples que pareça, é provavelmente aquela que provoca a maior humildade que uma pessoa é capaz de sentir. Esta é a Terra, fotografada pela Voyager 1, no dia 14 de fevereiro de 1990, quando a sonda estava a cerca de seis bilhões de quilômetros daqui. A Lua também aparece nesta foto, mas ela está tão próxima da Terra que o brilho das duas se funde em um só. Todas as pessoas que já existiram, toda a história da humanidade e das outras espécies com quem a gente divide ou já dividiu o planeta, aconteceu neste pálido ponto azul praticamente insignificante diante da imensidão do Universo.
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NASA - JPL Caltech
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Nós, porém, nascemos aqui embaixo, nós evoluímos na superfície da Terra, nossa sobrevivência sempre dependeu de fatores que habitam uma escala de grandeza muito menor do que a astronômica, os astros, inalcançáveis e praticamente imutáveis, acabaram ocupando um lugar secundário da nossa atenção, eles, simplesmente... Estão lá.
Faz pouco mais de quatrocentos anos que começamos a compreender que o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas não são ornamentos fixados em um cenário gigantesco e, sim, lugares que poderíamos visitar... E há pouco mais de meio século começamos a fazer isto, doze homens já colocaram os pés no mais próximo deles, feito imensamente invejado por uma nova geração que voou até lá recentemente... E que precisou de um foguete com 98 metros de altura para acelerá-la até lá, em uma viagem que durou 4 dias.
Difícil entender estas grandezas, não?
Afinal, nossos cérebros evoluíram para lidar com problemas bem mais simples, para calcular distâncias muito mais próximas. Como compreender o que são 384.400 quilômetros, a distância da Terra à Lua, se estamos acostumados a nos deslocar, no máximo, poucos quilômetros por dia? E os 149 milhões e 600 mil quilômetros que nos separam do Sol? E os seis bilhões de quilômetros que distanciavam a Voyager 1 daqui na icônica foto do Pálido Ponto Azul?
Hoje vamos tentar trazer as distâncias astronômicas para o cotidiano, transformar aquelas esferas e pontos celestiais em destinos mais “reais”, “pé no chão”, compreender quanto tempo demoraríamos para alcançá-los...
Se caminhássemos até eles!
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Unsplash
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Sim, caminhar, a maneira mais básica de um ser humano se deslocar, é esta que está registrada nas partes mais primitivas dos nossos cérebros. Distâncias de centenas ou milhares de quilômetros, que conseguimos percorrer hoje com nossos meios de transporte modernos, não conseguem transmitir com tanta clareza o esforço envolvido porque são artificiais, elas conversam apenas com a parte mais desenvolvida das nossas mentes, para entendermos realmente as distâncias astronômicas, precisamos compreendê-las instintivamente, saber o real preço que pagaríamos para percorrê-las.
Para isto, vou usar a mim mesmo como exemplo por dois motivos: primeiro, porque eu sou a pessoa a quem eu conheço melhor, e tenho dados das minhas caminhadas com que trabalhar... E segundo, porque eu sou um ser humano mediano, não estou fora de forma mas não sou um atleta... Já não estou mais nos anos áureos da minha vida, mas não cheguei à velhice também.
Segundo os dados recolhidos pelo smartwatch que uso, quando visito o parque próximo de onde moro, coisa que faço pelo menos uma vez por semana, eu caminho perto de nove quilômetros, a uma velocidade aproximada de cinco quilômetros e meio por hora. Eu costumo ficar cansado após uma caminhada destas... Não chego a ficar exausto, mas me canso. Porém... Como eu disse, eu só vou até o parque uma vez por semana, se fosse me dedicar somente a isto, a caminhar, como faríamos caso quiséssemos ir andando até os astros, é razoável imaginar que uma pessoa mediana conseguiria andar seis horas por dia, deixando o restante do tempo para descansar, comer, fazer suas necessidades e dormir.
Supondo que seja possível manter os cinco quilômetros e meio por hora, seis horas de caminhada representariam trinta e três quilômetros de avanço por dia.
Está aqui nosso parâmetro.
Obviamente não é possível andar pelo espaço, onde não há chão nem oxigênio, dois elementos sem os quais fica bastante difícil caminhar... E a gravidade, que aqui nos prende ao chão e possibilita o ato de andar, lá nos aceleraria na direção do corpo massivo mais próximo, alterando o ritmo da viagem, o que não queremos.
A ideia é definir uma distância e percorrê-la como se houvesse chão, ar e gravidade permitindo o caminhar...
Que vai ser a distância média entre a Terra e o objeto que queremos alcançar.
Vamos começar com um destino fácil?
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NASA
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A ISS, nossa Estação Espacial Internacional, é o lugar mais visitado por astronautas nas últimas duas décadas e meia. A altura de sua órbita varia, mas ela está, em média, a quatrocentos quilômetros de distância da superfície do planeta. Andar até ela a um ritmo de 33 quilômetros por dia demoraria doze dias e três horas, aproximadamente.
Bastante... Mas algo que conseguiríamos fazer com alguma facilidade.
Voltemos nossos olhos, então, para o próximo destino, aquele que levou quatro dias para a tripulação da Artemis II alcançar. É difícil ter uma noção instintiva do tamanho e da distância até a Lua, ela tem, mais ou menos, o tamanho do nosso polegar com o braço estendido, assim como o Sol... E suas crateras e relevo só ficaram conhecidos quando inventamos o telescópio, há quatrocentos anos, antes achávamos que ela era uma esfera perfeita manchada. Pouca gente sabe que a cor do nosso satélite é semelhante à do asfalto, ela só parece bem mais clara porque está sendo iluminada pelo Sol quando é noite por aqui, é o contraste que nos faz pensar que ela é branca... E o tamanho também é difícil de calcular, afinal ela PARECE do mesmo tamanho do Sol, os eclipses indicam isso... Ilusão causada pela distância muito menor que nos separa de nosso satélite.
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Artemis II Lunar Flyby - NASA
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A Lua é quatro vezes menor do que a Terra em termos de diâmetro, e está a 384.400 quilômetros de distância.
Quanto tempo demoraríamos para chegar até ela?
A órbita lunar tem alguma excentricidade, a distância de lá para cá varia pouco mais de 42 mil quilômetros, portanto os 384 mil e 400 são uma média, e o número que vamos usar para nossos cálculos.
Caminhar até lá trinta e três quilômetros por dia, parando para descansar, dormir, comer e tudo o mais demoraria onze mil e seiscentos e quarenta e oito dias...
O que equivale a trinta e um anos e onze meses!
Se alguém começasse esta caminhada em direção à Lua com dezoito anos, para ter um corpo adulto, capaz de manter o ritmo... Chegaria lá perto de fazer cinquenta anos de idade!
O próximo alvo é fácil de deduzir: o objeto que mais brilha em nossos céus, com uma luz tão forte que é capaz de pintá-los de azul. Caminharemos até o Sol, nossa estrela, que também parece “do tamanho do nosso dedão”, mas que, obviamente, é um pouco maior...
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Rabizo
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Quero dizer... BEM maior.
Nossa distância em relação ao Sol também varia um pouco mas vamos usar 149 milhões e 600 mil quilômetros, a média, para os cálculos. Caminhar 33 quilômetros por dia levaria uma pessoa até o Sol em...
Doze mil, quatrocentos e vinte anos!
Dá para se ter uma noção desta tremenda distância? Supondo que fosse um grupo de pessoas que caminhasse até lá, para que ele pudesse se reproduzir pelo caminho, afinal ninguém vive doze mil, quatrocentos e vinte anos... Para chegar lá hoje, eles teriam que ter saído daqui...
No paleolítico!
Não teriam nem ao menos inventado a agricultura antes de partirem!
Mas o Sol é quente demais, muita gente prefere o frio... Talvez outro destino seja mais atraente para elas. Que tal Saturno? Não apenas é o planeta mais interessante do Sistema Solar depois da Terra, como é o objeto mais distante que conseguimos ver a olho nu dentro do sistema.
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Unsplash OStudio
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Se um grupo de humanos fosse caminhando até lá, e se a distância percorrida fosse a menor entre a Terra e Saturno, um bilhão e duzentos milhões de quilômetros...
Ele teria que ter saído do nosso planeta a 99 mil e 626 anos, época tão distante que até mesmo outras espécies humanas ainda existiam por aqui, poderia ser um grupo de neandertais visitando o planeta dos anéis.
Surpreendente, não? Transformar os pontinhos no céu em lugares também nos torna muito mais humildes, escancara nossa pequenez.
E isto porque, até agora, nos limitamos ao nosso sistema... As dezenas de milhares de estrelas que vemos em noites como esta estão muito, mas muito mais distantes! Quanto tempo demoraria para alcançarmos a mais próxima delas?
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European Southern Observatory
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Próxima Centauri, a dita cuja, é uma anã vermelha que nem a menos é visível a olho nu, e faz parte do sistema Alpha Centauri, que é triplo, as duas estrelas maiores são visíveis a olho nu aqui no hemisfério sul mas, por conta de sua proximidade, parecem uma só. Proxima possui três exoplanetas já confirmados, inclusive Proxima B, que é apenas um pouco maior do que a Terra e está na zona habitável da estrela, um lugar onde nossos andarilhos poderiam parar para descansar antes da viagem de volta, talvez observando a estrela e suas duas irmãs no céu.
Proxima Centauri está a 4,25 anos-luz da Terra, o equivalente a 40 trilhões e 208 bilhões de quilômetros... Caminhar 33 quilômetros por dia até lá levaria, nada mais, nada menos, do que 3 bilhões, 338 milhões, 148 mil e 609 anos!
Seria uma viagem impossível por diversos motivos, o maior deles é que a vida na Terra surgiu mais ou menos nesta época no passado, precisaríamos de 3 bilhões e 338 milhões de anos apenas para a evolução chegar aos humanos!
E esta é a estrela mais perto de nós... Existem outras até vinte mil vezes mais distantes só dentro da Via Láctea... Sem contar com as que compõem outras galáxias, trilhões, quatrilhões de vezes mais distantes. É por isso que é tão difícil conectar o espaço com o mundano... As escalas são absurdamente diferentes! Mas não tenha dúvidas... Não há separação entre o que há lá em cima e o que há aqui embaixo. Nós somos tanto o Cosmos quanto Júpiter... O Sol... Ou o Sagitário A estrela!
Assim como nós nos habituamos a distâncias na casa dos milhares de quilômetros quando inventamos carros e aviões, talvez um dia nos acostumemos com viagens que durem meses ou anos, no caso dos destinos dentro do Sistema Solar... E séculos, quando nos aventurarmos pelas estrelas, talvez algumas gerações humanas não conheçam nada além de viajar.
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NASA
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Restaria a elas o consolo de olhar para trás e ter esta visão da Terra, algo que uma de suas sondas precisou de doze anos e cinco meses para fotografar... E um ser humano caminhando demoraria 498 mil e 132 anos para alcançar!
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