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A vida por aqui já foi bem mais simples. A grande maioria dos organismos que surgiram na Terra desenvolveram, no máximo, cérebros capazes de mantê-los vivos pelo maior tempo possível, mas há duzentos mil anos apareceu uma espécie que, finalmente, alcançou a autoconsciência, começou a questionar quem era, onde estava e qual era o sentido de tudo aquilo em volta de si.
Olhar para cima e procurar por respostas deve ter sido aterrorizador...
Culturas como a Egípcia, surgida mais de dezenove dezenas de milhares de anos depois, decidiram que o Sol era, na verdade, o Deus Rá, o criador do Universo...
Os gregos imaginavam nos planetas deuses como Zeus, Ares e Afrodite...
Os incas olhavam para a Lua e viam nela “Mama Killa”, a esposa do Sol, protetora das mulheres e da fertilidade...
E os persas acreditavam que algumas das estrelas mais brilhantes eram guerreiras divinas que nos protegiam das forças do mal.
Demorou mais um punhado de séculos para que o método científico fosse criado e, finalmente, começássemos a entender o que víamos. O Sol e as estrelas são a mesma coisa, esferas gigantescas de hidrogênio fundindo átomos em seus núcleos... A Lua é um pedaço da Terra arrancado daqui na infância do Sistema Solar... E os planetas, outras “Terras”, bem diferentes porém.
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Olhar Digital
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Descobrimos, inclusive, que a Via Láctea não é o derramamento do leite da deusa Hera e, sim, um número incontável de estrelas organizadas em braços espirais e que existem inúmeras outras “Vias Lácteas” espalhadas pelo Universo, o que uniu definitivamente o mundano com o divino, acabando com a noção de um “reino superior” no espaço e fazendo muita gente questionar a necessidade de seres etéreos para explicar nossa existência...
Até que, ao compreender as leis que regem o Universo e, principalmente, as Constantes Universais, os números que “calibram” estas leis e permitem a existência do Cosmos... Alguns começaram a pensar que, já que sutis alterações nestes números impediriam o surgimento da vida, talvez haja uma mão divina por trás da criação do homem.
Será?
Vamos entender por que esta sintonia fina é tão importante e se ela indica ou não a existência de um Deus?
Peguemos, por exemplo, a Constante Gravitacional, que aparece na Lei da Gravitação Universal do Newton e rege o movimento dos corpos com massa pelo Universo. Se seu valor fosse maior... Talvez o Universo já tivesse parado de expandir e começado a se comprimir, talvez ele tivesse desabado sobre si mesmo instantes após o Big Bang, ou as estrelas queimariam seu combustível nuclear muito mais rápido e mal haveria tempo para os planetas se formarem, quanto mais a vida.
O mesmo acontece com a Constante Cosmológica, que aparece nas Equações de Campo do Einstein, as que descrevem como a matéria e a energia curvam o espaço-tempo... E nas do Friedmann, que determinam a Expansão do Universo.
A Constante Cosmológica é um número muito, muito pequeno...:
0,000000000000000000000000000000000000000000000000001114
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Brasil Escola
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É este valor minúsculo que define a Expansão do Universo, e é por ser tão pequeno que, por exemplo, a expansão não separa você do chão – porque a gravidade é maior...
A Terra não sai da órbita do Sol – porque a gravidade é maior...
O Sol não escapa da Via Láctea – porque a gravidade é maior...
E Andrômeda e a Via Láctea vão se chocar daqui a cinco bilhões de anos – porque a gravidade é maior.
A expansão só supera a gravidade a uma distância imensa, a partir de cinco milhões de anos-luz, os grupos locais de galáxias só existem porque estão em “bolhas” menores do que isto, quando esta distância é ultrapassada, a expansão vence a gravidade e as galáxias passam a se afastar.
Se o valor da Constante Cosmológica fosse um pouco menor, o Universo não teria se expandido tanto assim e poderia já estar num processo de encolhimento graças à gravidade.
Se fosse ainda menor, o Universo teria desabado sobre si mesmo logo após o Big Bang.
A hipótese contrária também não é nada atraente... Uma Constante Cosmológica maior poderia impedir a formação de galáxias, as estrelas estariam espalhadas pelo vazio... E se a aumentássemos ainda mais, a gravidade não conseguiria nem ao menos aglutinar estrelas e não haveria ninguém aqui para questionar a formação do Universo.
O mesmo vale para as outras forças do Universo, se a Força Forte fosse um pouco menor, os quarks não se uniriam em prótons e nêutrons e os átomos não existiriam, parece mesmo que tudo foi finamente sintonizado para que o Sol, a Terra e nós existíssemos...
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Mas isto prova a existência de um Criador?
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Se o Sol, a Terra e nós fôssemos o centro do Universo, como a humanidade imaginou durante quase toda sua existência, este seria um forte argumento... E é por isso que ele ainda PARECE forte a boa parte das pessoas, afinal o Sol, a Terra e nós são tudo com o que elas lidam no dia a dia.
Mas a ciência nos deu outros olhos...
E eles nos mostraram uma realidade muito diferente!
Outro dia eu estava observando Júpiter no pátio do meu prédio quando um vizinho que nunca tinha usado um telescópio se aproximou, curioso... E quando ele olhou pela ocular... Gritou um “uau” de admiração no instante em que sua mente realizou que Júpiter e suas luas realmente existem, que outros planetas existem, que outros LUGARES além da Terra existem. Imagino o que o Galileu sentiu quando foi a primeira pessoa a ver a mesma coisa há quatrocentos anos, não é à toa que a Igreja o perseguiu, naquele momento todo o conceito de existência pregado por ela durante séculos foi questionado, deixamos de ser o centro do Universo para nos tornarmos “apenas mais um lugar”.
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Hulton Archive/Stringe, Colorido por Rabizo
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E a coisa, de lá para cá, só piorou.
Quando o Edwin Hubble percebeu que boa parte das nebulosas que víamos no céu, na verdade, eram outras galáxias, descobrimos que o Sol é apenas uma entre dez sextilhões de estrelas no Universo... E a Terra, provavelmente um entre oitenta sextilhões de planetas, ou seja, não há nada de especial por aqui.
Ou há...
A vida como a conhecemos depende de uma série de fatores que, coincidentemente, aparecem aqui. Nós evoluímos neste planeta. Somos o que somos graças à força com que a gravidade nos puxa em direção ao chão, à composição química da Terra, à quantidade de calor que o Sol manda para cá, ao campo magnético que nosso planeta produz.
Coincidência?
Eu diria que sim, afinal são oitenta SEXTILHÕES de planetas por aí, e só aqui, na nossa vizinhança, os outros sete são inabitáveis, na verdade QUALQUER LUGAR do espaço é inabitável para nós, quando começarmos a colonizar o Sistema Solar teremos que criar habitats para sobrevivermos... E mesmo se encontrarmos um exoplaneta idêntico à Terra, o que implicaria a existência de vida por lá, afinal é graças a ela que nossa atmosfera é rica em oxigênio... Ele não vai ser completamente compatível conosco porque a vida de lá terá criado animais e microrganismos diferentes e, muito provavelmente, letais a nós.
Os únicos lugares do Universo REALMENTE compatíveis com a vida humana... São os continentes e oceanos que se abrigam abaixo da nossa fina camada de atmosfera. Tudo acima ou abaixo dela pode nos matar em segundos. Se a meta de um ser divino fosse criar a vida, qual seria a função de, por exemplo, Urano? E de Betelgeuse? E que tal do buraco negro Sagitário A estrela?
Não sabemos se existe vida em outras partes do Universo, talvez sejamos só nós... Neste caso, quais seriam as chances de estarmos aqui ao acaso? Aproximadamente uma em oitenta sextilhões, um número incrivelmente pequeno, mas que corresponde com o que observamos, afinal nós estamos aqui!
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History Extra
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A explicação divina para a existência da humanidade funciona bem em um Universo de poucas centenas de milhares de quilômetros com esferas de cristal que giram em torno de nós... Mas a explicação do acaso é exatamente o que esperamos de um Universo com várias dezenas de bilhões de anos-luz de diâmetro e 13 bilhões e oitocentos milhões de anos de idade!
Mudar os valores das constantes universais ou impediria a existência do Universo por tempo suficiente para o surgimento da vida...
Ou atrapalharia a formação dos átomos e, portanto, não haveria nada consciente também...
Ou evitaria o colapso da matéria em estrelas e planetas, o que também evitaria o nascimento da vida.
São universos possíveis em qualquer um dos casos, mas neles não haveria questionamentos porque não existiria quem fizesse as perguntas, portanto o ajuste fino não é prova de que ele foi feito por um ser inteligente e, sim, prova de que NESTA configuração de Universo, existem seres capazes de questionar suas origens. É como se uma poça d’água, de repente, se tornasse autoconsciente e, ao observar o buraco em que está, pensasse que o Universo foi criado apenas para ela, afinal o buraco tem exatamente o seu formato. Nós somos o que somos não porque as leis do Universo foram sintonizadas para o nosso surgimento... Mas porque, dadas as leis que regem o Universo, foi inevitável o nosso surgimento, assim como a poça apareceu ali, naquele buraco, em um dia de chuva.
E o pior é que a Terra nem é tão perfeita assim para a nossa existência, quem fica tempo demais debaixo do Sol sem proteção tem boas possibilidades de disparar uma multiplicação descontrolada de células que vai lhe levar à morte, sair de casa desagasalhado no inverno provavelmente causará um ressecamento das mucosas nasais que vai facilitar a entrada de vírus prejudiciais ao organismo de seu dono... Construir um abrigo sem planejar cuidadosamente sua localização pode encurtar a vida de seus moradores... Isso sem falar dos antigos inquilinos do planeta, que viraram atrações dos nossos museus só porque uma pedrona resolveu “dar um tchibum” no México há sessenta e cinco milhões de anos.
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National Geographic, Nicolle R. Fuller
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O acaso não ligaria para nenhum destes eventos, afinal ele é o acaso, por ele, ele não teria nem vindo...
Mas o divino...
Por que um Criador faria isto com suas criaturas?
E quem disse que ESTAS deveriam ser as criaturas?
Sim, dadas as leis da natureza e as constantes cosmológicas, planetas ou luas com água líquida infestada por nucleotídeos tendem a fazer surgir vida espontaneamente, mas isto não quer dizer que a vida baseada em silício, por exemplo, não pode existir... Nem que outros tipos de vida, completamente diferentes, poderiam surgir em outros universos nos quais o ajuste das leis e constantes universais fosse diferente do nosso, ou seja...
O argumento do ajuste fino pende muito mais para o acaso do que para o divino.
Levando tudo isso em consideração, ainda dá para dizer que existe um Criador que fez as leis e as constantes e sintonizou do jeito que estão e, depois, resolveu apenas contemplar sua criação, nunca mais voltando a interferir no destino do Universo... Mas então, por que acrescentar um Criador à equação, se não há interferência, se não há “mágica” ocorrendo após o momento da criação?
Por que um Deus criaria elétrons, prótons e nêutrons, radiação, forças que interferem na nossa vida, se bastaria seu pensamento mágico para fazer criaturas pensantes e o habitat onde elas viveriam?
Isso sem falar que as configurações tão bem sintonizadas das leis da física e das constantes universais só garantem cerca de 100 trilhões de anos para a existência de vida, é este o tempo que demorará para que não apenas as anãs vermelhas como as anãs brancas se apaguem... E sem estrelas para gerar energia, a vida se tornará impossível.
O Universo continuará por aqui, porém...
Cada vez mais habitado apenas por buracos negros, que um dia evaporarão graças à Radiação Hawking, daqui a trilhões de trilhões de trilhões de anos...
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Kari Magnuson, Unsplash
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Abandonando um Cosmo residido, para sempre, apenas por radiação.
Por que um Criador faria um Universo cujas leis o fadariam a ser desabitado pela grande maioria de sua existência?
Nós tendemos a imaginar que uma inteligência é necessária para criar este acaso em que vivemos, sem parar para pensar que o acaso levou treze bilhões e oitocentos milhões de anos para criar a inteligência que está imaginando isso. A vida surgiu do acaso, de uma sopa de nucleotídeos em um mar primordial que os uniu na sequência correta e os fez começar a multiplicar, e as dificuldades que esta vida enfrentou em quatro bilhões e duzentos milhões de anos a moldaram para chegar a estes seres curiosos de agora. Por que antropomorfizar o acaso, se foi o acaso, a necessidade de evoluir para sobreviver, que nos deu as ferramentas que temos agora para questioná-lo?
Sei o quanto esta discussão é incômoda para muita gente e que não vai ser a minha opinião em um assunto muito mais filosófico do que científico que vai mudar a sua, mas a verdade é que poucos pensam nestes assuntos assim que se acostumam com a visão de mundo que herdam de seus pais... Minha intenção aqui é apenas fazer pensar, verificar tudo o que aprendemos nestes últimos séculos e entender como isso se aplica à nossa própria existência. Deixar de ser a Joia da Criação pode ser angustiante, mas perceber que demorou treze bilhões e oitocentos milhões de anos para o Universo começar a questionar a si mesmo e que nós somos estes questionadores nos coloca em um patamar muito, mais muito mais especial ainda.
É a consciência desta condição que um dia vai unir a humanidade...
E nos fazer conquistar as estrelas!
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