|
|
|
| |
|
No dia 4 de novembro de 1960, o renomado cientista austríaco-americano Heinz von Foerster publicou um artigo na prestigiadíssima revista Science, cujo título, além de provocante, está causando uma crescente angústia nos dias atuais: “Fim do Mundo: Sexta-Feira, 13 de novembro de 2026 depois de Cristo”.
Dizer que a Terra vai acabar no final deste ano é um pouco pretensioso demais, nosso planeta tem perto de seis sextilhões de toneladas de massa, a força necessária para destruí-lo é absurdamente grande, 224 quintilhões de Joules, não há nada a caminho daqui capaz de fazer isto, algo que seria possível, talvez, apenas em uma galáxia muito, muito distante.
Os seres que vivem na superfície do planeta, porém...
São bem mais frágeis, a Terra já passou por cinco grandes extinções em massa, nossos antepassados morreram graças a glaciações, a períodos de vulcanismo descontrolado, à explosão de uma hipernova a dezenas de anos-luz daqui e a colisões com asteroides, talvez a extinção em massa mais famosa de todas, aquela que dizimou os dinossauros não-avianos e permitiu que os mamíferos começassem a dominar o planeta.
|
| |
|
|
University of Illinois publicity department
|
| |
|
Mesmo após o surgimento do homo sapiens houve outro evento de extinção em massa, a explosão de um supervulcão na ilha de Sumatra há 70 mil anos dizimou mais de NOVENTA por cento dos humanos da época... E o Pacífico anda bastante agitado, com vulcões explodindo e terremotos chacoalhando as casas dos nossos vizinhos orientais.
Seria esta a previsão do Foerster sobre o final do mundo no dia 13 de novembro de 2026, teria ele descoberto alguma configuração anormal das placas tectônicas que indicasse que é a força que vem das entranhas da Terra que vai nos destruir...
Teria ele detectado algum asteroide gigantesco a caminho daqui...
Ou seremos nós mesmos os responsáveis pelo fim da humanidade?
|
| |
|
|
Unsplash
|
| |
|
Bom, se houvesse um asteroide gigante assassino prestes a se chocar com a Terra em 13 de novembro, ele já seria facilmente detectável até mesmo por astrônomos amadores, e como temos uma imensidão de telescópios profissionalíssimos voltados para o céu e não detectamos nada... Podemos riscar o impacto com corpos celestes.
A explosão de supervulcões é um pouco mais difícil de se detectar... Mas nestas alturas, já notaríamos inchaços na crosta e o aumento da atividade subterrânea, o que também não ocorreu.
O que o Foerster previu, então?
Os campos que chamavam sua atenção eram vários, desde a biofísica, a ciência da computação e até mesmo a inteligência artificial...
Mas o que motivou nosso amigo austríaco-americano e sua equipe a escreverem sobre o fim da humanidade foi o crescimento acelerado da nossa população.
Ao analisar dados populacionais desde a época de Cristo até 1958, ano em que começaram a fazer a pesquisa, eles notaram não apenas que o crescimento da humanidade era exponencial, mas superexponencial, nós nos multiplicamos muito mais aceleradamente do que qualquer outra espécie que divide o planeta conosco. Isto acontece porque o crescimento de todas as outras espécies colapsa quando os recursos acabam, se a grama dos pastos acaba, ou os animais que estão ali saem em busca de outras pastagens, ou a população para de crescer por falta de recursos.
Mas nós...
Humanos conversam, pensam em soluções, criam tecnologias e multiplicam aquilo que poderiam extrair daquela mesma quantidade de solo, ou seja...
Nós conseguimos empurrar os limites, aumentar os recursos...
E por isso, não paramos de nos multiplicar.
|
| |
|
| |
|
O Foerster, então, criou uma equação que representa nosso crescimento, colocou os dados...
|
| |
|
| |
|
E chegou a este gráfico, que parece um pouco estranho porque inverte o sentido do tempo tradicional, aqui o passado está à direita e o futuro, à esquerda. O N maiúsculo representa o número de pessoas, que cresce exponencialmente... E o n minúsculo, a densidade populacional, ele colocou, inclusive, a de alguns países e continentes como referência.
Os pequenos círculos no centro são estimativas históricas da população mundial, e os triângulos, projeções feitas por outros autores. Como os dados se alinham, o Foerster criou a linha que sobe para a esquerda, e que prevê a chegada ao “dia do Juízo Final”: os valores na linha superior também são logarítmicos, começando dez mil anos antes do “fim do mundo” e terminando em 2017, dez anos antes do “Juízo Final”... Que seria em 13 de novembro de 2026.
E o que aconteceria, então, na fatídica data?
Chegaríamos a um número infinito de pessoas, algo que, obviamente, nunca vai acontecer. Os dados do Foerster estavam corretos, tudo o que ele colocou no gráfico era verdade, mas o artigo foi escrito em 1960, portanto aquilo que ele PREVIU não se concretizou. Por exemplo, pelo gráfico, a população mundial no ano 2000 estaria entre 6 e 7 bilhões, ele acertou, o número real é 6 bilhões e 170 milhões... Mas em 2017 teríamos chegado a 18 bilhões, sendo que só alcançamos 7 bilhões e 600 mil.
O que impediu que morrêssemos esmagados por nós mesmos?
O artigo do Foerster foi um alerta, na época a preocupação com os limites da Terra já estava sendo discutida e o que ele propôs foi impedir o colapso da civilização criando algum tipo de “termostato social”, um programa de controle de natalidade que diminuísse a quantidade de nascimentos. Lembre-se, eram os anos sessenta, nesta época as mulheres brasileiras costumavam ter uma média de seis filhos.
Isto acontecia por conta da dificuldade de acesso a métodos contraceptivos modernos...
Ao próprio papel social das mulheres, vistas muito mais como donas de casa e mães do que profissionais competentes em seus trabalhos...
E à maior quantidade de famílias que moravam no campo, onde ter muitos filhos significava mais mãos para trabalhar nas plantações.
Na época do estudo, 66 por cento da população mundial vivia no campo, só 34 por cento morava nas cidades... Número que se inverteu: hoje 58 por cento da população é urbana, e apenas 42 por cento é rural.
A realidade, o modo de viver da maioria das pessoas mudou radicalmente...
E isto impactou diretamente no crescimento populacional. O tal “termostato social” que o Foerster sugeriu... Acabou surgindo naturalmente, graças ÀS MULHERES!
|
| |
|
| |
|
Até 1760, quando começou a Revolução Industrial, as mulheres tinham muitos filhos não porque era mais fácil criar muitas crianças, mas porque a medicina ainda era primitiva e a taxa de mortalidade infantil, altíssima. Tinha-se seis, sete, oito filhos para que dois ou três chegassem à idade adulta. Com o desenvolvimento da medicina, não apenas a mortalidade infantil despencou como as pessoas passaram a viver mais, ou seja, as famílias aumentaram de tamanho e se tornaram caras demais para se manter.
As melhores condições providas pela ciência também trouxeram escolhas para as mulheres, que agora podiam optar por estudar e ter carreiras profissionais, quebrando uma estrutura social que prevalecia por séculos e dando a elas a possibilidade de mandarem em seus próprios narizes. Isto fez com que muitas mulheres optassem por ter menos filhos ou até mesmo filho nenhum, já que suas vidas estavam mais focadas em seus trabalhos, e esta justíssima independência acabou funcionando como o tal “termostato social” que o Foerster achava que deveria ser implantado.
|
| |
|
|
HYDE, UN Population Division, Our World In Data
|
| |
|
Repare neste gráfico que a taxa de crescimento anual da população vinha realmente aumentando exponencialmente até 1968, oito anos após a publicação do trabalho do Foerster... Mas que a sociedade e, principalmente, as decisões das mulheres, cada vez mais independentes, fizeram o crescimento anual despencar. Isto não significa que a população parou de crescer, claro... Ela vai continuar a aumentar, mas em um ritmo cada vez mais lento... Até atingir o pico perto de 11 bilhões em 2100. Aquilo que o Foerster dizia ocorrer apenas com os outros seres vivos do planeta, o ajuste da população a partir da falta de recursos, acabou acontecendo com os seres humanos de uma maneira um pouco diferente...
Estamos ajustando nossa população a partir das nossas escolhas de vida, da falta de recursos também, claro... Mas principalmente, da falta de tempo, das prioridades, da vontade de se ser alguém e deixar um legado, não apenas perpetuar a espécie.
|
| |
|
| |
|
E o fim do mundo, MESMO, quando vai acontecer? Sim, porque um dia, vai acontecer, vemos exemplos de catástrofes tão grandes ou maiores espalhadas pela Via Láctea o tempo todo, é claro que nosso sistema não será poupado, e já temos uma boa ideia de como a Terra, primeiro, se tornará inabitável... E, depois, deixará de existir!
A grande culpada será nossa estrela, a nossa fonte de energia, aquilo que mantém a vida no planeta será, também, o que a dizimará no futuro distante. O Sol se formou em uma nuvem de hidrogênio e hélio, todas as estrelas nascem assim, elas acumulam hidrogênio e hélio graças à gravidade a ponto de sua massa começar a esmagar os átomos que estão em seu núcleo e forçar a fusão nuclear. O hidrogênio vira hélio e libera energia, a luz que recebemos aqui foi criada assim, são reações que estão ocorrendo há quatro bilhões e meio de anos.
O problema é que as fusões produzem um subproduto, o hélio, que vai se acumulando no núcleo do Sol, criando uma bolha que não entra em fusão porque a temperatura e a pressão necessárias para fundir o hélio é maior do que a disponível. Isto empurra as fusões para a fronteira da bolha, que conforme cresce, vai se aproximando da superfície do Sol... E aumentando o seu brilho, desde que acendeu até agora, o Sol vem brilhando cada vez mais forte.
É este o processo que, eventualmente, acabará com a vida por aqui.
Daqui a 600 milhões de anos o aumento do brilho do Sol e, por consequência, da nossa temperatura superficial vai começar a rachar as rochas da crosta, o que vai expor uma quantidade maior de suas superfícies e permitir que os minerais que as compõem capturem o gás carbônico presente na atmosfera. Isso já acontece hoje em dia, é o chamado “Ciclo Inorgânico do Carbono”, mas com mais superfície exposta, o processo ocorrerá mais rápido e a quantidade de CO2 na atmosfera diminuirá até desaparecer.
E sem gás carbônico...
Adeus fotossíntese C3, a que ocorre em 95 por cento das plantas...
E aos herbívoros que se alimentam delas e aos carnívoros que se alimentam deles.
A fotossíntese C4, que ocorre em algumas plantas como os pés de cana, ainda pode manter um resquício de vida durante mais 200 milhões de anos... Mas depois disso, só os seres que vivem próximos das fontes hidrotermais no fundo dos oceanos sobreviverão.
Em um bilhão de anos, a temperatura média da Terra será de 47 graus Celsius, 32 graus a mais do que agora, o que começará a evaporar os oceanos e transformará nosso planeta em um novo Vênus, completamente desabitado...
Que permanecerá assim até nossa estrela inchar durante sua fase de gigante vermelha e o engolir no processo, finalmente dando fim à belíssima história que nossa linda esfera azul vem contando há quatro bilhões e meio de anos.
O que podemos fazer para evitar este fim do mundo?
O mesmo que as mulheres fizeram e evitou as previsões do Foerster, priorizar nossas vidas, nosso legado como espécie.
Não precisamos parar de crescer nos 11 bilhões previstos pela ONU, mas para isto temos que alcançar novas Terras, novos planetas, colonizar o Sistema Solar e a galáxia.
É algo que vai acontecer, se não sucumbirmos à nossa estupidez...
Já está acontecendo, é bem provável que a maioria de nós veja o início da colonização de Marte...
Claro que jamais chegaremos a um número infinito de seres humanos, como o Foerster previu, mas certamente alcançaremos os trilhões ou quatrilhões...
Quando a Terra deixar de ser nosso limite!
|
| |
|