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Você sabe o que quer dizer “Hail Mary”, o nome da espaçonave do filme “Devoradores de Estrelas”? Sim, literalmente é “Ave Maria”, talvez o nome da mais famosa reza da humanidade... Mas a expressão “Hail Mary” surgiu no futebol americano, um “Hail Mary” é um arremesso nos últimos instantes de um jogo com o qual um time tenta marcar desesperadamente um touchdown e consegue, a expressão também é empregada no basquete, aquela bola arremessada nos últimos instantes do jogo, quando cai na cesta, é um “Hail Mary”.
Vamos discutir o filme, porém, recomendo quem não o viu parar de ler este artigo por aqui, ele está recheado de spoilers...
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Project Hail Mary, Sony Pictures & Amazon MGM Studios
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Continua comigo?
Ok!
O nome da espaçonave e do projeto do qual ela faz parte faz sentido porque, em “Devoradores de Estrelas”, a humanidade está à beira da extinção e a única maneira de evitar isto é criar uma nave interestelar – coisa que somos incapazes de fazer com a tecnologia atual, e a história se passa na nossa época – que vai viajar a um sistema estelar a 11,9 anos-luz daqui para tentar entender por que os tais “devoradores” não estão atacando aquela estrela específica. É uma missão absurdamente difícil com uma meta nebulosa, a possibilidade de se chegar até lá é pequena, de descobrir a solução do problema menor ainda... E da possível solução ser aplicável ao nosso Sol, ainda mais implausível, por isso o nome “Hail Mary”.
O filme, porém... Não fala sobre o fim do mundo, e sim, sobre a amizade. O poder de duas mentes brilhantes trabalhando em conjunto. As transformações que alguém pode atravessar em situações absurdamente adversas.
Escrito por um dos autores de ficção científica mais respeitados da atualidade, criador de histórias absurdamente reais do ponto de vista científico, como a de “Perdido em Marte”, era de se esperar que o novo filme seguisse a fórmula e fosse o mais realista possível...
E não é que o blockbuster me surpreendeu mais do que eu imaginava?
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Project Hail Mary, Sony Pictures & Amazon MGM Studios
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Comecemos, então, com os seres que dão o nome ao filme em sua versão em português, os tais Devoradores de Estrelas. Na história, o Sol está perdendo gradativamente seu brilho e, calcula-se, em trinta anos mais de um quarto da população humana simplesmente morrerá de fome porque nossas plantações não conseguirão sobreviver ao frio e à pouca luz solar. O quão realista é este cenário?
Bom, o brilho do Sol não é constante, você já deve ter ouvido falar dos ciclos solares, nossa estrela passa por picos de emissão a cada onze anos, mas a diferença entre o maior e o menor brilho é pequena, de apenas 0,1 por cento. Isto faz com que a temperatura aqui na Terra varie... Em 0,1 por cento também, ou seja, nós mal percebemos estas mudanças, o máximo que costuma acontecer são problemas com nossos satélites durante as tempestades solares mais fortes.
Na história, porém, o Sol está perdendo brilho por conta de um organismo que se alimenta de sua luz, assim como as plantas aqui na Terra. Nossa vegetação absorve a luz solar e o gás carbônico da atmosfera para criar as reações químicas que permitem a vida... E os Devoradores de Estrelas absorvem a luz solar diretamente da superfície do Sol e, quando ficam completamente carregados de energia, migram para um planeta rico em gás carbônico, no caso Vênus, para se reproduzirem lá e depois voltar ao Sol.
Como eles vão da estrela ao planeta?
Convertendo parte da energia que carregam em raios infravermelhos, o que lhes dá propulsão e cria as chamadas “Linhas Petrova” que vemos no filme. No livro é dito que as paredes celulares dos Devoradores de Estrelas são capazes de reter neutrinos que, de alguma maneira, são utilizados para transformar a luz solar em massa, desta maneira cada Devorador consegue reter 1 milhão e meio de joules, energia suficiente para elevar um carro de uma tonelada e meia a 102 metros do chão. É graças a esta absurda quantidade de energia que os Devoradores conseguem migrar de um sistema estelar para outro e, também, que podem ser transformados em fonte de energia, são eles que possibilitam a criação da espaçonave do filme.
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Project Hail Mary, Sony Pictures & Amazon MGM Studios
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Há alguma verdade na ciência por trás dos Devoradores de Estrelas? Não que nós saibamos, o Andy Weir escondeu sua licença poética no mundo quântico, o que por si só já é um grande feito, mas nada indica que a vida possa existir em um ambiente tão absurdamente agressivo quanto a superfície do Sol, a organização que existe por trás da vida depende de reações químicas, e elas simplesmente não ocorrem dentro de um plasma, as temperaturas são altas demais para que os elétrons entrem nas órbitas dos núcleos, ou seja, não há átomos no Sol, apenas as peças necessárias para formá-los... E, sem átomos, sem reações químicas, sem reações orgânicas, o que basicamente é a vida, uma sequência organizada... De reações orgânicas.
“Ah, mas pode existir algum outro tipo de vida que nós não conhecemos e que faça estas coisas”, você pode estar pensando...
E eu diria que não, a vida é, por si só, uma sequência de reações orgânicas, sua essência mais básica é uma molécula gigantesca que carrega instruções para sua própria reprodução que não é capaz de sobreviver a um ambiente plasmático. Vida como a conhecemos é algo que pode existir em um Universo regido pelas leis que ele tem, o que o Andy Weir inventou foi uma licença poética, sua maneira de impulsionar a história.
O interessante é que os Devoradores são, além dos criadores do grande problema a ser resolvido na história, também a solução para ele, a Hail Mary, nave interestelar, é movida a Devoradores de Estrelas. Não só isso, algo que me incomodou muito vendo o filme foi a falta de um escudo frontal, afinal a nave viaja próximo à velocidade da luz, é a função daquela “antena parabólica” na frente da Enterprise...
Qual a solução encontrada pelo Andy Weir?
Colocar os Devoradores no casco da Hail Mary, afinal se eles são capazes até de armazenar neutrinos, não há nada que consiga atravessá-los, o que possibilitaria, portanto, a construção de uma nave capaz de fazer viagens interestelares na nossa época.
Será que a viagem, em si, foi plausível?
Como o nome indica, Tau Ceti, o destino da Hail Mary, fica na constelação da Baleia, “Cetus”, é uma estrela real, muito parecida com o Sol, em um sistema bem mais velho do que o nosso, com pelo menos oito bilhões de anos de idade. Já encontramos evidências de cinco exoplanetas lá que depois foram negadas por outro estudo, mas se eles existirem, um estaria na área habitável do sistema, poderia ser o “Adrian” do filme... Que está a 11,9 anos-luz de distância, quando olhamos para Tau Ceti, estamos vendo a luz que saiu de lá quando era 2014 por aqui.
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BBC News, Globo, ESPN
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Uma época da qual nós, brasileiros... Não temos muita saudade!
Quando o Grace acorda, eles estão chegando a Tau Ceti, é por isso que a nave tem gravidade, ela está desacelerando, o que o força em direção ao chão. A viagem, do ponto de vista dele, durou quatro anos, mas Tau Ceti está a quase doze anos-luz daqui. Isto só foi possível por conta da dilatação temporal, como a Hail Mary viajou perto da velocidade da luz, o tempo passou mais devagar dentro dela. Usando as fórmulas da Relatividade Geral, com um G e meio de aceleração constante – tanto para acelerar quanto para desacelerar – a viagem daqui até lá demoraria 13 anos e um mês do ponto de vista da Terra... E 3 anos e dez meses do ponto de vista da nave, bem próximo do que o filme retratou.
Curiosamente, 40 Eridani, a estrela da qual o Rocky saiu, está a uma distância parecida com a de Tau Ceti em relação à Terra, cerca de dez anos-luz, então sua viagem deve ter demorado mais ou menos o mesmo tempo. É por isso, inclusive, que o Rocky consegue transferir parte de sua reserva de Devoradores de Estrelas para a Hail Mary, afinal sua espécie não conhecia a Relatividade, eles achavam que deveriam queimar combustível por mais de dez anos para chegar até lá, mas graças à dilatação temporal, queimaram bem menos.
Ok, os cálculos da viagem deixariam o Einstein orgulhoso, com a mágica provida pelos Devoradores de Estrelas, seríamos capazes de fazer algo parecido mesmo no nosso nível tecnológico atual. E os eridianos, conseguiriam? Bom, a fonte de energia também funcionaria para eles, que claramente fazem artefatos com maior facilidade do que nós, ou pelo menos se lembraram de levar uma impressora 3D até Tau Ceti... A comunicação através das estátuas é genial!
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NASA/JPL
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Repare na capa protetora do disco dourado das Voyagers: aquele “asterisco exótico” indica as distâncias dos pulsares mais próximos até nós, é uma maneira de mostrar de onde as sondas vieram. É mais ou menos o que o Rocky fez com um dos primeiros artefatos que entrega para o Grace, que mostra de qual estrela ELE veio, a comunicação entre espécies inteligentes não deve ser muito diferente da comunicação entre pessoas que falam línguas completamente diferentes, ela seria possível por gestos, desenhos... Ou até mesmo estátuas.
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Project Hail Mary, Sony Pictures & Amazon MGM Studios
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40 Eridani, na verdade, é um sistema triplo, a estrela maior tem 85 por cento da massa do Sol, e suas companheiras são uma anã branca e uma anã vermelha, elas estão a 16,3 anos-luz daqui. Você já viu 40 Eridani antes na ficção científica... É ela quem ilumina Vulcano, casa do Spock, um dos extraterrestres mais amados da nossa cultura. Assim como em Tau Ceti, nós já imaginamos ter encontrado um exoplaneta por lá, o que parece ter sido um erro causado pela atividade da estrela maior...
Mas o planeta inventado pelo Andy Weir é bem interessante.
Ele teria o dobro da massa da Terra, o que não é levado muito em conta nas cenas finais do filme, o Grace teria dificuldades para se mover por lá, no livro, inclusive, ele usa uma bengala... Sua atmosfera seria predominantemente composta por amônia, ou seja, teria cheiro de limpa-vidros... E a temperatura na superfície atingiria 210 graus Celsius, nada agradável a seres humanos. A pressão atmosférica é vinte e nove vezes maior do que a terrestre, não chega a ser noventa e duas como a de Vênus, mas já mataria um ser humano fora de um habitat como o criado pelos eridianos no final do filme... E ela é opaca, na superfície não há luz, é por isso que o Rocky não tem olhos, ele enxerga as vibrações sonoras que recebe quando emite sons, assim como os morcegos fazem por aqui.
Um planeta assim é plausível?
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Project Hail Mary, Sony Pictures & Amazon MGM Studios
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Não vejo por que não ser, é só olhar a variedade de planetas no nosso Sistema Solar, só acho um pouco complicado o surgimento da vida em Erid, ainda mais dentro dos parâmetros que o Andy Weir inventou. A 29 atmosferas, a água estaria em estado líquido mesmo a 210 graus de temperatura... Segundo o autor, a comida vem dos céus, há seres criando fotossíntese na alta atmosfera que, quando morrem, caem na superfície do planeta...
Mas de onde viria o oxigênio necessário para sua digestão?
E o problema não para aí!
Diferentemente dos nossos corpos, que são compostos praticamente apenas por células vivas, os eridianos pesam cerca de duzentos quilos, dos quais apenas um é feito de material orgânico, que é baseado em carbono, como a vida na Terra, a existência dos eridianos confirmaria a teoria da panspermia. Sua comida, portanto, é orgânica, mas infelizmente venenosa para os humanos, no final da história, quando o Grace está no habitat construído em Erid, ele se alimenta de carne sintética criada a partir do seu próprio DNA, ou seja, ele se torna um canibal... Mas acho que qualquer um de nós faria isto nas mesmas condições, não?
Os eridianos possuem 5 corações, um próximo a cada perna... E um cérebro incrivelmente rápido para a matemática, é por isso que eles não possuem computadores, eles fazem todos os cálculos de cabeça. A xenonita, o material que compõe a nave e toda a tecnologia do Rocky é inconcebível aqui na Terra, talvez, em um ambiente com 29 atmosferas de pressão como em Erid, fosse possível construir algo sólido a partir de um gás nobre... Mas certamente estes objetos não sobreviveriam à falta de pressão do espaço, portanto a xenonita, assim como os Devoradores de Estrelas, também é uma licença poética da história, algo imaginado para dar nós na cabeça de pessoas como nós, que tentamos entender tudo o que vemos.
E daí?
“Devoradores de Estrelas” não tem a pretensão de ser absurdamente fiel às leis do Universo, mesmo sendo em sua maioria. As partes fantasiosas, porém, desafiam as mentes curiosas, nos fazem pensar, querer aprender mais, criar soluções, evoluir. É o espírito que está embebido na obra, o Grace começa como um covarde exilado de sua própria comunidade... E, graças à interação com o Rocky e a amizade que nasce dela, torna-se o salvador da humanidade.
Juntos eles evoluem, da única maneira que todos nós podemos evoluir...
Juntos!
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