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O que aconteceria se nós perdêssemos o Sol?
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Escrito por
Juliano Righetto
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A formação de um sistema solar é, muito provavelmente, um dos eventos mais complexos do Universo. Ela começa com uma nuvem de gás composta principalmente por hidrogênio e hélio, os dois elementos mais fundamentais criados após o Big Bang... Mas há nela, também, todos os outros elementos da tabela periódica, fornecidos por explosões de supernovas ocorridas num passado distante. A Lei da Conservação do Momento Angular, que diz que objetos girando tendem a aumentar sua velocidade quando diminuem de tamanho, faz com que a gravidade, aos poucos, transforme aquela nuvem amorfa em um disco...
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ALMA ESO NAOJ NRAO
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Evento que já observamos no entorno de inúmeras estrelas na Via Láctea...
E as colisões entre os corpos celestes que compõem este disco vão “limpando” o sistema aos poucos. Calcula-se que existiam de 50 a 100 planetesimais do tamanho de Marte só no Sistema Solar Interior durante sua formação, e você pode imaginar o caos que reinava naquela época. Parte destes planetesimais cai em direção à estrela, outra parte é ejetada para fora do sistema...
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Veritasium
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E um punhado deles se une e forma planetas que assumem órbitas estáveis e continuam por lá, acompanhando sua estrela até a sua morte.
Continuam mesmo?
Porque este equilíbrio é estável...
Mas bastante delicado, também.
Continuamos orbitando o Sol porque sua influência gravitacional é absurdamente maior do que a dos outros elementos do Sistema Solar, Júpiter e Saturno até conseguem mudar sutilmente nossa órbita de tempos em tempos, mas nada que nos tire o sono. Só que o Sistema Solar faz parte de uma família ainda maior, a Via Láctea, e ela é bastante dinâmica. As estrelas se aproximam e se afastam umas das outras o tempo todo, só não somos capazes de perceber isto porque as distâncias são absurdamente grandes...
E se uma delas se aproximar o bastante...
Poderíamos ser afetados de uma maneira catastrófica.
Afinal, nada melhor do que uma estrela para perturbar um equilíbrio mantido durante bilhões de anos por outra estrela, não? O que aconteceria com a Terra caso nós fôssemos atirados para fora do Sistema Solar?
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Sobreviveríamos por quanto tempo se perdêssemos o Sol?
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Gerado por IA
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Antes de mais nada, é bom deixar claro que as chances disso acontecer são astronomicamente pequenas. Para uma estrela com cem vezes a massa do Sol conseguir nos arrancar do Sistema Solar, ela teria que passar a 10 unidades astronômicas daqui, 10 vezes a distância da Terra ao Sol. A chance de isto ocorrer até a morte do Sistema Solar é de uma em cem mil!
Mas pode acontecer.
Não num futuro próximo, afinal não temos estrelas deste porte na nossa vizinhança neste momento, mas ainda temos mais de cinco voltas para dar em torno da galáxia antes do Sol nos engolir no fim da sua vida, então há chances.
A aproximação de uma estrela deste porte causaria outros problemas antes mesmo de nos arrancar da órbita. Seu vento solar varreria nossa atmosfera para o espaço, e a radiação e o calor esterilizariam a superfície...
Mas imaginemos que algo um pouco menos espalhafatoso entre no Sistema Solar e passe a dez unidades astronômicas daqui.
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Astro La Palma
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Um buraco negro com cem massas solares nos arrancaria da órbita sem causar danos ao planeta... E a partir daquele momento, começaríamos a ver o Sol cada vez menor em nossos céus...
Isto seria um problemão, não?
Afinal, quase toda a energia que alimenta a vida na Terra vem do Sol. Com menos luz, a fotossíntese diminuiria aos poucos, o que significa que a produção de oxigênio cairia.
Um problemão para seres que respiram oxigênio como nós.
Mas um problemão a longo prazo. A humanidade respira em torno de seis bilhões e oitocentos e cinquenta e sete milhões de toneladas de oxigênio por ano... Mas nossa atmosfera contém um quatrilhão de toneladas. Mesmo levando em consideração todos os outros seres que respiram oxigênio, temos um estoque que duraria milhares de anos, se não fosse pelo frio.
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Gerado por IA
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Sim, o frio... Assumindo que o buraco negro nos atirasse para fora do sistema solar à mesma velocidade que orbitamos o Sol, 30 quilômetros por segundo, em aproximadamente um mês ultrapassaríamos a órbita de Marte, onde a temperatura média é de -60 graus Célsius... Já estaríamos perto de igualá-la por aqui... Como enfrentaríamos este cenário?
É fácil imaginar que a maior parte da vida vegetal já teria morrido, afinal ela precisa da luz para sobreviver, algo cada vez mais escasso no planeta. O metabolismo das árvores é mais lento, e elas possuem grandes estoques de açúcar, o que as fariam resistir por mais tempo... Mas o resto das plantas sucumbiria.
E como a base da cadeia alimentar estaria arruinada...
É fácil deduzir que os animais, aos poucos, começariam a sucumbir, também. Aqueles que se alimentam de cadáveres durariam mais, claro... Mas, mais cedo ou mais tarde, morreriam de frio. E quanto aos seres humanos?
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Gerado por IA
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Bom, nós temos algumas fontes de energia que resistiriam à diminuição do brilho do Sol por algum tempo. Usinas termoelétricas trabalhariam por alguns dias até os estoques de combustível acabarem, afinal o transporte se tornaria caótico e pararia em pouco tempo. A energia nuclear funcionaria por algumas semanas, até a água que circula em seus sistemas congelar... E a eólica resistiria enquanto o frio não parasse seus geradores.
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Jacob Hamilton
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Usinas hidroelétricas congelariam junto com seus rios, e os painéis solares perderiam eficiência conforme nos afastássemos... Uma pequena e rica parte da humanidade ainda conseguiria sustentar mais um pouco uma vida “normal” em seus bunkers, mas a grande maioria começaria a queimar tudo o que pudesse para se manter aquecida.
Quando passássemos a órbita de Marte, o propano e o butano, os gases que acendem nossos fogões, já manteriam permanentemente sua forma líquida. Alguém com um estoque de botijões de gás e pouco conhecimento científico teria muita dificuldade para usá-los como fonte de calor. Seria cada vez mais difícil encontrar comida, e até mesmo os peixes se tornariam inacessíveis, já que o oceano começaria a ser coberto por uma grossa camada de gelo.
E a coisa pioraria conforme nos afastássemos mais.
Oito meses após a ejeção, ultrapassaríamos a órbita de Júpiter, e as temperaturas superficiais estariam próximas a -160 graus Celsius. Dificilmente alguém fora de um bunker ainda estaria vivo, e mesmo aqueles dentro de um aquecido por energia geotérmica estariam em apuros já que os geradores na superfície congelariam.
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Gerado por IA
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O final estaria próximo mesmo para quem tenha resistido até aqui.
Porque antes mesmo de cruzarmos a órbita de Saturno, o que aconteceria um ano e meio após a ejeção, a temperatura média da superfície cairia para abaixo de 183 graus Celsius negativos, e neste ponto...
O oxigênio começaria a liquefazer.
Choveriam gotas de oxigênio dos céus... O que, além de diminuir a pressão atmosférica, e provavelmente causar furacões muito mais violentos do que os que estamos acostumados, tornaria o ar irrespirável. Nestas alturas, gostar de frio não é o suficiente. Todos os organismos aeróbicos ainda vivos sucumbiriam.
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somos míopes porque somos breves
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E a situação pioraria ainda mais. Poucas semanas após a liquefação do oxigênio, atingiríamos menos 195,8 graus Celsius, o ponto de liquefação do nitrogênio. O resto da atmosfera desceria à superfície, e a Terra se consolidaria como uma gigantesca bola de gelo sem vida.
Sem vida, mesmo?
Porque, afinal...
O Sol não é a única fonte de energia do planeta.
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NOAA Ocean Exploration
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Estas fontes hidrotermais submarinas, encontradas próximas às junções das placas tectônicas no fundo do mar, trazem uma série de elementos vindos do manto ao fundo do mar. Existem microrganismos que usam estes elementos como fonte de energia e seres maiores, como alguns tipos de caranguejos e camarões, se alimentam destes microrganismos, formando uma cadeia alimentar que independe do Sol. Como estes seres nunca nem ao menos viram nossa estrela, nossa partida do Sistema Solar não seria notada por eles, que continuariam ali, vivendo sua escura e isolada vida. Não é à toa que se imagina haver vida em Europa, lua de Júpiter, e Enceladus, lua de Saturno. Ambas possuem oceanos líquidos debaixo de uma grossa camada de gelo, e muito provavelmente uma grande atividade tectônica, graças à proximidade com seus gigantes gasosos.
São duas “mini-terras” que só não prosperaram tanto quanto nós porque estão bem mais distantes do Sol.
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Gerado por IA
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Este seria, portanto, o fim da humanidade, mas não o da vida.
Assim como aquelas dezenas de planetesimais que foram ejetados do Sistema Solar durante sua formação, nós permaneceríamos orbitando o centro da galáxia, num planeta escuro, tripulado apenas por camarões, caranguejos e microrganismos submarinos.
O mais interessante é pensar que, na órbita do Sol, temos apenas mais dois ou três bilhões de anos para desfrutar a Terra, após isto a expansão da nossa estrela a tornará inabitável...
Ou seja, se fôssemos ejetados do Sistema Solar, a vida prosperaria por muito mais tempo...
O que nos faz pensar nas imensas comunidades que podem existir no fundo dos oceanos de algumas das luas dos nossos gigantes gasosos...
E até mesmo nos planetesimais dispensados durante a infância do Sistema Solar.
Quantos seres que jamais sentiram o calor de um raio de Sol não devem existir por aí, vivendo em mundos sem sóis e sem céus?.
Nós imaginamos que a vida deve ser abundante porque existem muitas estrelas nas galáxias, mas dificilmente nos lembramos destas centenas de planetesimais que cada uma delas ejeta enquanto se formam...
E que talvez sejam os maiores e mais duradouros paraísos para a vida que existem no Universo!
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