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Existe uma frase que você inevitavelmente vai ouvir se passar tempo suficiente perto de alguém que gosta muito de rock: “música boa mesmo era antigamente”.
Dependendo da idade da pessoa, esse “antigamente” pode significar anos 60, 70, 80, 90 ou até 2000. Mas o raciocínio costuma ser parecido: antes existiam bandas de verdade, antes os músicos sabiam tocar, antes as letras tinham conteúdo, antes havia criatividade... hoje é tudo igual, tudo comercial, tudo descartável.
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E eu acho curioso porque, quando alguém fala que os anos 70 eram incomparáveis (é minha década favorita), geralmente começa a prova citando Led Zeppelin, Pink Floyd, Black Sabbath, Queen, David Bowie... E convenhamos, né?! Aí fica difícil competir.
Só que existe um detalhe nessa comparação. Quando olhamos para os anos 70 em 2026, não estamos olhando para tudo que foi lançado nos anos 70. Estamos olhando só para o que sobreviveu, fazendo uma curadoria dos melhores que resistiram ao tempo.
Uma quantidade imensa de músicas medianas, bandas esquecíveis, modismos passageiros e cópias malfeitas simplesmente desapareceu do nosso campo de visão. Ninguém está sentado em 2026 indignado porque uma banda medíocre de 1974 era medíocre. Afinal, a gente nem lembra que ela existiu.
Enquanto isso, quando julgamos a música atual, recebemos o pacote completo. O disco maravilhoso lançado ontem e a música insuportável que viralizou no TikTok estão acontecendo ao mesmo tempo. Ainda não sabemos o que vai atravessar vinte, trinta ou cinquenta anos.
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Mas tem outra coisa acontecendo aí, e ela talvez seja ainda mais interessante: nosso cérebro também faz sua própria curadoria.
Existe um fenômeno estudado pela psicologia chamado reminiscence bump, ou “pico de reminiscência”. Quando adultos mais velhos são convidados a recuperar memórias autobiográficas, existe uma tendência desproporcional a lembrar de acontecimentos vividos durante a adolescência e o começo da vida adulta..
E a música parece ter uma relação especialmente forte com isso.
Um estudo que comparou livros, filmes e discos favoritos encontrou o pico de reminiscência mais acentuado justamente nos discos. Outro trabalho, publicado em 2013, mostrou que músicas das primeiras décadas da vida despertavam mais memórias, reconhecimento, preferência e respostas emocionais.
Faz bastante sentido!
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A adolescência e o início da vida adulta são períodos em que uma quantidade absurda de coisas está acontecendo pela primeira vez. Primeiro amor, primeiras festas, primeiras grandes amizades, primeiras rupturas, começo da independência, formação de identidade... E a música está tocando enquanto tudo isso acontece.
Por isso, quando você escuta vinte anos depois uma música que marcou seus 16 anos, você não está avaliando apenas baixo, guitarra, bateria, letra e produção. Tem um monte de coisa entrando naquela audição junto.
Talvez você esteja ouvindo também o quarto onde dormia, os amigos que tinha, a pessoa por quem era apaixonado, a versão de você que existia naquela época.
Estudos sobre memória autobiográfica evocada por música mostram justamente o poder que músicas familiares têm de recuperar experiências pessoais e emoções associadas a elas. Aí fica complicado pedir para uma música que você descobriu anteontem competir em condições iguais.
E existe ainda o fator mais básico possível: a gente costuma gostar mais daquilo que conhece.
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Em um experimento publicado em 2017, participantes ouviram repetidamente músicas que não conheciam. Conforme a familiaridade aumentava, aumentavam também as avaliações positivas das músicas. E a familiaridade com o próprio estilo musical apareceu como um dos fatores mais importantes para explicar preferência.
Ou seja: aquela música nova que você ouviu uma única vez e achou “sem graça” está disputando sua atenção com um disco que você escuta há vinte anos e sabe exatamente onde entra cada virada de bateria.
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Mas acho que a parte mais divertida dessa história começa quando percebemos que nostalgia musical nem sequer exige memória. Porque tem muita gente com saudade de uma época que nunca viveu.
O mesmo estudo de 2013 que falei antes encontrou um resultado inesperado: os jovens participantes também demonstravam um pico de reconhecimento e preferência por músicas da geração de seus pais. Os pesquisadores chamaram isso de cascading reminiscence bump. Parte da música que marcou uma geração pode ser transmitida dentro de casa e acabar ganhando significado para a seguinte.
(Talvez seja assim que eu ame tanto a música dos anos 70!)
Então seu pai escutava determinado disco quando tinha 20 anos, você cresceu ouvindo aquele disco no carro, em casa, nos churrascos, e anos depois aquela música também parece pertencer à sua própria história.
E hoje isso extrapola completamente a família.
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Uma pesquisa divulgada pela Vevo em julho de 2026 encontrou algo que achei engraçadíssimo pensando naquele clássico “eu nasci na geração errada”: 65% dos jovens da Gen Z entrevistados disseram sentir nostalgia por épocas em que nunca viveram. Um em cada três afirmou justamente sentir que nasceu na geração errada.
A própria pesquisa chama isso de borrowed nostalgia, ou nostalgia emprestada.
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E acho que nunca foi tão fácil sentir isso. Hoje você pode ter 17 anos e passar a tarde assistindo a shows completos de 1977, entrevistas de 1992, comerciais antigos da MTV, documentários, roupas, fotografias, playlists e filmes que recriam determinada época.
O passado deixou de ser apenas uma lembrança de quem esteve lá. Virou um acervo praticamente infinito disponível para qualquer pessoa.
E obviamente a indústria percebeu isso.
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Reuniões de bandas, turnês comemorativas, edições de aniversário, biografias, cinebiografias, relançamentos em vinil, camisetas vintage, músicas antigas recuperadas por filmes e séries... nostalgia também virou um mercado gigantesco.
Os números deixam isso bem evidente. Segundo dados da Luminate referentes aos Estados Unidos, em 2025 mais de 75% dos streams de áudio foram de músicas classificadas como catálogo, ou seja, lançadas havia mais de 18 meses. E músicas dos anos 80 e 90 aumentaram significativamente sua participação nos streams em relação ao ano anterior.
Claro que “mais de 18 meses” inclui muita coisa que ninguém chamaria de velha. Mesmo assim, o dado desmonta um pouco a ideia de que vivemos numa indústria exclusivamente obcecada pela novidade.
Estamos ouvindo muita música antiga. E ela também continua sendo empurrada para nós.
Talvez isso ajude a entender por que o saudosismo é tão confortável, especialmente no rock.
O rock construiu uma parte enorme da sua identidade em torno de cânone. Existem os discos que “você precisa ouvir”, os guitarristas que “você precisa conhecer”, as bandas que “mudaram tudo”. Isso é importante para preservar história musical, claro. O problema começa quando conhecer o passado deixa de ser repertório e vira uma espécie de teste de pureza.
Aí aparece o “isso não é rock de verdade”, o “hoje ninguém sabe tocar”, o “essa geração não conhece música boa”.
E eu acho particularmente engraçado que um gênero construído durante tanto tempo em torno de juventude, ruptura e novidade consiga produzir fãs tão profundamente desconfiados de qualquer coisa que seja... nova.
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Alguém ouviu Black Sabbath sem saber que Paranoid entraria para a história. Alguém comprou um disco do Nirvana antes de existir a certeza cultural de que Nevermind era um “clássico”. Bowie lançou trabalhos sem o benefício de cinquenta anos de documentários posteriores explicando por que eles eram importantes.
Essas pessoas tiveram uma experiência que o saudosismo muitas vezes nos impede de ter: ouvir alguma coisa antes de ela receber o selo de importante. E claro que isso envolve risco.
Você vai ouvir coisa ruim. Vai amar uma banda que desaparecerá dois anos depois. Vai achar um disco genial e depois mudar de ideia. Pode ignorar alguma coisa que dez anos mais tarde vai descobrir que era maravilhosa.
É exatamente assim que viver uma época musical funciona!
Talvez também exista uma diferença entre dizer que determinada época musical foi mais importante para você e afirmar que ela foi objetivamente melhor.
A primeira frase ninguém consegue contestar. A música que acompanhou uma parte importante da sua vida ganhou um significado que uma produção tecnicamente perfeita talvez nunca consiga alcançar.
Já a segunda exige decidir o que “melhor” significa. Melhores músicos? Melhores letras? Mais inovação? Mais diversidade? Mais impacto cultural? Produções mais sofisticadas? Melhores performances ao vivo?
E ainda existe um problema impossível de eliminar: estamos tentando comparar uma época que já conhecemos inteira com outra que ainda está acontecendo.
Talvez daqui a trinta anos alguém faça uma lista sobre a música dos anos 2020 e pareça que durante esta década só existiram os vinte artistas extraordinários que conseguiram sobreviver ao tempo.
O resto terá desaparecido. Exatamente como aconteceu com as décadas que hoje parecem tão perfeitas.
Então, quando alguém diz que “música boa mesmo era antigamente”, talvez valha perguntar qual antigamente.
O que REALMENTE existiu?
Ou aquele que chegou até nós depois que o tempo retirou boa parte das músicas ruins, transformou algumas boas em clássicos, acrescentou nossas memórias às que vivemos e, em alguns casos, nos deu até saudade de coisas que aconteceram antes de nascermos?
Eu continuo achando maravilhoso colocar um disco dos anos 70 e pensar que determinada época deve ter sido musicalmente incrível.
Só acho ainda mais interessante lembrar que provavelmente havia alguém naquela mesma época reclamando que música boa mesmo era a da geração anterior.
O passado já chega até a gente com décadas de curadoria. Mas o presente ainda está em audição.
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