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No dia 2 de setembro, dois dias antes do Rock in Rio abrir oficialmente os portões para o público, eu entrei na Cidade do Rock para o evento teste e pensei uma coisa muito simples: “estou em casa.”
Pode parecer exagero chamar um festival de casa, principalmente um lugar que só existe durante algumas semanas a cada dois anos. Mas eu conheço aquele espaço muito bem. Já trabalhei em várias edições, sei onde ficam os palcos, reconheço os caminhos, tenho minhas manias, meus lugares preferidos e até aquela sensação estranhamente familiar de atravessar os portões e ver tudo montado de novo.
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Foram oito dias contando o evento teste. Eu chegava por volta de 12h30, começava a trabalhar às 14h e seguia até 23h. E, mesmo depois de nove horas de trabalho, eu ainda ficava até o final para assistir aos shows.
Sim, é cansativo como parece. E sim, eu faria tudo de novo.
Talvez porque trabalhar num festival faça você perceber uma coisa que, como público, é muito fácil esquecer: antes de existir palco, fogos, luz, artista e aquela multidão cantando a mesma música, existe uma quantidade absurda de gente trabalhando para aquilo acontecer.
Promotores, produtores, seguranças, vendedores, garis, montadores, técnicos, equipes de alimentação, atendimento, limpeza...
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Quando você chega como público, quase tudo isso precisa ser invisível. A experiência só parece fluida porque alguém chegou antes de você para montar, organizar, testar, limpar, abastecer e resolver problemas que você provavelmente nunca vai saber que existiram.
Quando você trabalha ali, começa a enxergar as costuras.
E curiosamente isso nunca tirou a magia para mim. Acho que aumentou.
Porque aquele espetáculo gigantesco deixa de parecer uma máquina abstrata e ganha rosto. Você vê pessoas cansadas ajudando outras pessoas cansadas. Alguém empresta alguma coisa, alguém cobre o outro por cinco minutos, alguém dá uma informação, divide comida, resolve um problema. Tem parceria, amizade, reclamação, piada interna e todo aquele tipo de conexão que surge quando um monte de gente precisa fazer uma coisa enorme funcionar junto.
E em 2026 havia bastante coisa enorme funcionando.
O Palco Mundo, por exemplo, ganhou uma cenografia completamente nova, com 2.400 metros quadrados de painéis de LED de alta definição ocupando praticamente toda a estrutura frontal. Ele também cresceu e chegou a 107 metros de largura. Na prática, o próprio palco virou uma tela gigantesca e alguns artistas souberam aproveitar isso MUITO bem.
Pra mim, ninguém usou melhor aquela estrutura do que o Bring Me The Horizon. Foi provavelmente o palco mais impressionante que vi durante a edição.
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Mas teve muita coisa boa.
Nova Twins foi uma grata surpresa. Halsey é inacreditável ao vivo. Black Pantera entregou mais um daqueles shows absurdos, pesados e politizados que eu já esperava deles. A energia do Calvin Harris conseguiu atravessar uma chuva quase torrencial. E finalmente vi Mumford & Sons de novo, dez anos depois da última passagem da banda pelo Brasil (o show que eu mais estava esperando nessa edição).
E teve a música brasileira.
Péricles, BaianaSystem, Criolo, Marina Sena e tantos outros lembrando uma coisa que grandes festivais às vezes parecem esquecer enquanto correm atrás do próximo headliner internacional: a gente tem artista PRA CARALHO nesse país.
Péricles, inclusive, transformou o Palco Sunset numa homenagem à Motown que acabou aparecendo entre os shows mais elogiados da edição.
Só que seria muito fácil escrever este texto como uma declaração de amor ao Rock in Rio e fingir que tudo foi perfeito. Não foi
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Talvez a palavra que melhor resuma a experiência de 2026 seja: CHUVA.
Choveu muito. E chuva num festival desse tamanho atrapalha absolutamente tudo.
Você fica molhado, suas coisas ficam molhadas, o chão muda, a locomoção fica mais difícil, o frio bate, algumas atrações precisam ser suspensas por segurança e atividades simples viram operações logísticas. No dia 6, por exemplo, a chuva forte chegou a interromper os agendamentos da roda- gigante e da tirolesa.
É impossível culpar o festival pelo clima, obviamente. Mas também é impossível fingir que o clima não muda completamente a experiência.
Rock in Rio com tempo bom é outra coisa!
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E esse foi também um Rock in Rio mais caro. O ingresso de gramado inteiro chegou a R$ 870, contra R$ 795 na edição de 2024. Além disso, estreou a Comfort Zone, uma área exclusiva próxima ao Palco Mundo, com bares e banheiros próprios, cuja inteira custava R$ 1.950.
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A impressão de uma edição menos cheia também não foi só minha.
A procura pelos diferentes dias foi bastante desigual e, segundo um balanço publicado depois do festival, quatro dos sete dias terminaram sem esgotar ingressos. Os dias mais ligados ao rock e ao metal estavam justamente entre aqueles que demoraram mais a vender.
O que é particularmente engraçado porque sempre existe aquela discussão: “Mas o Rock in Rio ainda é um festival de rock?”
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Pra mim, continua sendo um festival de rock no sentido mais radical possível da palavra. Ele arrebenta!
E continua existindo público para rock ali. Vi muita gente animada nos shows, muita camiseta de banda, roda, gritaria, fã esperando horas por artista. Só acho que o Rock in Rio já deixou claro há muitas edições que sua proposta ultrapassou qualquer ideia de festival dedicado exclusivamente a um gênero musical.
E talvez seja justamente por isso que uma das coisas mais divertidas seja observar como a Cidade do Rock muda completamente de personalidade de um dia para o outro.
No dia do Elton John, me chamou atenção a quantidade de pessoas mais velhas. E eu achei aquilo lindo. Uma terceira idade animada, estilosa, disposta a passar horas num festival gigantesco para ver um artista que fez parte da vida delas.
Já no dia do Stray Kids parecia que alguém tinha diminuído uns vinte anos da média de idade da Cidade do Rock.
Foi, inclusive, a primeira vez na história do festival que o k-pop ganhou um dia dedicado ao gênero no Palco Mundo.
E no último dia era maravilhoso olhar para os lados e ver de um lado fãs supercoloridos da Zara Larsson e, do outro, fãs inteiros vestidos e pintados de preto como Tyler Joseph, do Twenty One Pilots.
Uma mesma cidade ocupada por tribos completamente diferentes com intervalo de poucas horas.
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Talvez seja aí que aquela frase meio clichê faça tanto sentido: música realmente une pessoas.
Mas existe outra característica dos grandes festivais atuais que ficou ainda mais evidente pra mim dessa vez: a gente também vive uma parte cada vez maior deles através do celular.
E eu não sou aquela pessoa que vai dizer “GUARDEM OS CELULARES E VIVAM O MOMENTO!”.
Eu gosto de registrar coisas.
Um momento especial merece virar vídeo. Uma música que você ama pode merecer um registro. Daqui a dez anos, talvez você fique feliz de ter aqueles trinta segundos guardados.
Só que teve hora em que eu olhava para o palco e praticamente enxergava uma parede de celulares na minha frente.
E o celular hoje já serve para muito mais do que filmar o show.
Ingresso, foto, mapa, conversa com os amigos, redes sociais, pagamento, cadastro em ativações...
Muitas ações das marcas exigiam que você escaneasse um QR Code, entrasse num site, fizesse cadastro e dependesse de internet.
Agora imagine fazer isso debaixo de chuva?;
No dia dedicado ao k-pop, aliás, o tráfego de dados móveis bateu recorde no festival: durante o show do Stray Kids, os clientes da TIM consumiram 2,3 terabytes de dados, volume 20% superior ao registrado na apresentação do Black Eyed Peas, que liderava até então. Instagram e WhatsApp estavam entre os aplicativos mais usados pelo público ao longo da noite.
E isso me leva a outra contradição interessante desta edição: as ativações das marcas.
Eu trabalho justamente desse lado e acho muito legal quando uma marca tenta oferecer alguma experiência além de simplesmente colocar seu logotipo num festival.
Só que muitas ativações parecem ter entrado numa competição para descobrir quem consegue criar a experiência mais elaborada possível.
E quanto mais elaborada a experiência, mais demorada ela fica. Quanto mais demorada, menos gente participa. E quanto menos gente consegue participar, maior a fila.
Tem um ponto em que a marca investiu uma fortuna para criar uma experiência memorável e a memória que o público leva pra casa é: “aquela fila tava GIGANTE.”
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Porque festival já é uma experiência por si só. Às vezes, uma ativação rápida, divertida e eficiente deixa uma lembrança muito melhor do que quinze etapas, cadastro, QR Code, vídeo, jogo, foto, retirada de brinde e duas horas esperando para chegar até lá.
Mas acho que a maior diferença de viver tudo isso como trabalhadora foi justamente perceber que eu não precisava transformar cada momento em material.
Eu registrei pouca coisa. E adorei.
Depois de trabalhar, eu simplesmente ia assistir aos shows. Às vezes filmava. Às vezes tirava uma foto. Em outras, só ficava ali.
E em um ano particularmente atravessado pelo luto, eu percebi de novo uma coisa que já sabia sobre mim: show é um dos lugares em que eu consigo extravasar emoção.
Existe alguma coisa em estar no meio de milhares de pessoas, com um som absurdamente alto, cantando uma música que você ama, que permite sentir as coisas de um jeito diferente.
Talvez por isso eu tenha conseguido continuar encantada mesmo cansada, molhada, com frio, depois de trabalhar o dia inteiro.
Nem o telão gigantesco.
Nem os fogos do Palco Mundo.
Nem a multidão.
Eu escolheria um vídeo que gravei dos garis dançando.
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Eles estavam trabalhando. Assim como eu. Provavelmente cansados também.
E ainda assim encontraram alguns minutos para ouvir a música, dançar, brincar e se divertir no meio do expediente.
Aquela cena resume muito bem o Rock in Rio que eu conheço.
Porque por trás da imagem perfeita que aparece na televisão existe um exército de pessoas carregando caixa, recolhendo lixo, orientando público, distribuindo produto, montando estrutura, controlando acesso, vendendo comida e resolvendo problemas.
Gente que sente dor no pé, pega chuva, reclama, se cansa. E que, às vezes, no meio disso tudo, começa a dançar.
Talvez seja exatamente por isso que, quando entrei ali depois de dois anos, pensei que estava em casa.
Eu não voltei só para um festival.
Voltei para aquela confusão enorme de música, trabalho, chuva, gente, cansaço, fogos, filas, perrengue e euforia que, de algum jeito, continua funcionando.
E depois de oito dias vivendo aquilo por dentro, eu ainda não consigo olhar para o Rock in Rio apenas como um palco onde artistas se apresentam.
A magia existe!
Só que eu sei muito bem que ela também bate ponto.
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