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Quem decide o que é rock de verdade?
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ESCRITO POR
Marcela Casolari
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Existe uma figura que todo mundo que gosta de rock já encontrou pelo menos uma vez na vida: o fiscal do rock. Ele costuma aparecer quando uma banda experimenta um sintetizador, quando um artista pop se aventura pelas guitarras ou quando alguém comete a imperdoável ousadia de gostar de Iron Maiden e Taylor Swift ao mesmo tempo (eu aí!). Sempre pronto para anunciar que determinada música “não é rock de verdade”, esse sujeito parece carregar consigo um regulamento que ninguém nunca viu, mas que ele jura conhecer de cor.
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O curioso é que, se dependesse desse regulamento, talvez o próprio rock jamais tivesse existido.
A história do gênero é, essencialmente, uma história de encontros, apropriações, disputas e transformações. O rock and roll surgiu nos Estados Unidos a partir de tradições musicais profundamente ligadas à população negra, especialmente o blues, o rhythm and blues e o gospel, em diálogo com o country e outras expressões populares. Antes de Elvis Presley se tornar o rosto mais reconhecível daquela revolução, artistas como Sister Rosetta Tharpe, Chuck Berry, Little Richard e Big Mama Thornton já ajudavam a construir sua linguagem musical e performática.
Essa origem deveria tornar particularmente estranha a ideia de que o rock pertence a um grupo específico de pessoas. Entretanto, conforme o gênero foi sendo comercializado e consolidado como uma indústria, sua imagem pública passou por um processo de embranquecimento. A associação entre rock, masculinidade branca e rebeldia juvenil tornou-se tão forte que, décadas depois, músicos negros ainda precisam reivindicar um espaço dentro de uma tradição que seus próprios antecessores ajudaram a criar.
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E essa disputa continua acontecendo. Quando Beyoncé lançou Cowboy Carter, em 2024, o debate sobre pertencimento musical voltou a ganhar força, dessa vez em torno do country. Embora o disco dialogue principalmente com esse gênero, a discussão expôs um mecanismo semelhante ao que encontramos no rock: a resistência à presença de artistas negros em territórios musicais que foram historicamente embranquecidos. A própria Beyoncé já havia enfrentado questionamentos ao explorar o rock em “Don’t Hurt Yourself”, parceria com Jack White lançada em 2016.
As mulheres também conhecem muito bem esse tribunal. Durante décadas, precisaram disputar reconhecimento em um ambiente que frequentemente reservava aos homens o papel de músicos e às mulheres o de fãs, musas ou acompanhantes. De Sister Rosetta Tharpe a Joan Jett, passando por Poly Styrene, do X-Ray Spex, e Skin, do Skunk Anansie, a história do rock está cheia de mulheres que desafiaram expectativas sobre como deveriam cantar, tocar, se vestir e ocupar o palco.
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Mas existe outra contradição nessa patrulha: ◆ os artistas hoje tratados como representantes máximos da autenticidade frequentemente ◆ foram aqueles que mais desafiaram as convenções de seu tempo.
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David Bowie atravessou o glam, o soul, a música eletrônica e inúmeras outras referências. O Queen incorporou ópera, disco e pop à sua sonoridade. O The Clash misturou punk, reggae, ska, dub e funk. Até os Beatles, hoje elevados à condição de patrimônio sagrado da música, abandonaram rapidamente as fórmulas que os tornaram famosos para experimentar novas possibilidades em estúdio. Se todos tivessem permanecido obedientes a uma definição rígida de rock, boa parte dos discos que hoje chamamos de clássicos simplesmente não existiria.
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É claro que gêneros musicais possuem características, tradições e contextos históricos. Discutir essas classificações pode ser interessante, especialmente quando nos ajuda a compreender como determinada música foi construída. O problema começa quando uma classificação estética se transforma em instrumento de exclusão, ou quando o gosto pessoal passa a ser apresentado como uma verdade universal.
Existe também uma dimensão social nessa necessidade de estabelecer fronteiras. Para muita gente, gostar de rock representa uma identidade, uma comunidade e até uma maneira de se posicionar diante do mundo. Quando algo que consideramos parte da nossa identidade muda, é possível sentir que estamos perdendo alguma coisa. Talvez por isso a popularização de uma banda provoque tanta irritação em determinados fãs, como se o sucesso comercial apagasse automaticamente tudo aquilo que os fez gostar dela.
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Mas quem ganha quando transformamos a música em uma competição por legitimidade? Certamente não são os artistas que desejam experimentar, tampouco os ouvintes que poderiam descobrir novas sonoridades sem receio de serem julgados.
A ironia é que um gênero tão associado à liberdade tenha produzido tantos guardiões de fronteiras. O rock nunca foi uma entidade imóvel, preservada intacta desde os anos 1950. Sua história foi escrita justamente por pessoas que atravessaram limites, misturaram referências e contrariaram expectativas.
Talvez a pergunta mais interessante, portanto, não seja quem tem autoridade para decidir o que é rock de verdade, mas por que ainda sentimos tanta necessidade de pedir autorização para gostar de música.
Eu, particularmente, prefiro continuar ouvindo. E deixando que os fiscais discutam entre si.
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