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Quem ensinou o Brasil a cantar ademocracia?
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ESCRITO POR
Marcela Casolari
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Ontem, enquanto milhões de brasileiros acompanhavam a apuração das eleições presidenciais, pensei em quantas vezes este país já precisou aprender a ter esperança. Entre a ansiedade dos números, o medo de uma derrota e a alegria de uma virada, havia algo que nenhuma porcentagem conseguia traduzir completamente: a sensação de participar de um momento que, de alguma maneira, também pertencerá à nossa memória coletiva.
Com a reeleição de Lula, depois de um primeiro turno em que havia terminado atrás de seu adversário, o Brasil viveu mais um capítulo de sua história democrática. E, enquanto pensava nisso, me ocorreu uma pergunta: quantas das nossas lembranças políticas têm uma trilha sonora?
Talvez mais do que imaginamos.
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Durante a ditadura militar, instaurada em 1964, a música brasileira se tornou um importante espaço de resistência, especialmente em um período em que a censura perseguia artistas, proibia composições e tentava controlar o que podia ser dito publicamente. Nem toda música daquele período era um protesto explícito, evidentemente. Mas algumas conseguiram transformar sentimentos que pareciam individuais em experiências compartilhadas por milhares de pessoas.
Em 1970, Chico Buarque escreveu “Apesar de Você”, uma composição que, sob a aparência de uma discussão pessoal, carregava uma crítica à repressão política. A música chegou a circular antes de ser proibida pela censura. Seu futuro, entretanto, seria muito maior do que aquele que os censores imaginavam: anos depois, ela se tornaria um dos símbolos da resistência à ditadura.
Havia algo profundamente subversivo em imaginar um amanhã diferente quando o presente parecia tão sufocante. A possibilidade de que aquele tempo acabasse, de que a liberdade voltasse a ocupar as ruas, já era, por si só, uma afronta ao autoritarismo.
E Chico estava longe de estar sozinho.
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Em 1979, Elis Regina gravou “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, que se tornaria um dos grandes hinos da campanha pela anistia. A canção evocava as ausências deixadas pela repressão, a saudade dos exilados e a expectativa de reencontros. Sua força estava também na capacidade de dar uma dimensão humana à violência política: por trás das disputas institucionais, existiam famílias separadas, vidas interrompidas e pessoas esperando para voltar para casa.
Poucos anos depois, durante a campanha das Diretas Já, as ruas brasileiras voltariam a reunir multidões. E, mais uma vez, havia música.
Milton Nascimento, Fernando Brant, Chico Buarque e tantos outros artistas participaram daquele movimento, enquanto canções como “Coração de Estudante” e “Menestrel das Alagoas” ajudavam a traduzir o desejo coletivo de recuperar o direito de escolher o presidente da República.
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A emenda das eleições diretas não foi aprovada em 1984. O país ainda enfrentaria uma transição negociada, e o primeiro presidente civil após a ditadura seria escolhido indiretamente. A democracia brasileira, como sabemos, não nasceu pronta. Mas aquelas multidões já haviam demonstrado que o desejo de participação política não poderia continuar sendo ignorado.
O interessante é perceber que muitas dessas músicas sobreviveram aos acontecimentos que lhes deram origem. Continuamos ouvindo “Apesar de Você”, “O Bêbado e a Equilibrista” e “Coração de Estudante” porque elas passaram a representar sentimentos que ultrapassam seus contextos históricos. Tornaram-se parte de um repertório afetivo que nos permite reconhecer, em experiências diferentes, antigas inquietações e esperanças.
E esse repertório não ficou restrito à MPB.
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Nos anos 1980, o rock brasileiro também encontrou na abertura política um terreno fértil para suas inquietações. Enquanto a Legião Urbana questionava as promessas de sua geração, o Plebe Rude denunciava o autoritarismo e as contradições sociais. Em “Que País É Este”, Renato Russo transformou uma pergunta aparentemente simples em uma provocação que continua desconfortavelmente atual.
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◆ Talvez porque a conquista de eleições livres nunca tenha significado o desaparecimento ◆ das injustiças, da violência ou das ameaças às instituições democráticas.
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A música também não precisa oferecer respostas para participar dessas discussões. Às vezes, sua contribuição está justamente em formular perguntas que o poder preferiria não ouvir, preservar histórias que poderiam ser esquecidas ou lembrar que determinados direitos foram conquistados por pessoas que vieram antes de nós.
Há quem considere exagero atribuir tanta importância política a uma música. Afinal, nenhuma música derrubou uma ditadura sozinha, aprovou uma Constituição ou venceu uma eleição. Mas movimentos sociais também são construídos a partir de símbolos, afetos e experiências compartilhadas. E poucas manifestações culturais conseguem produzir esse sentimento de pertencimento com tanta intensidade quanto a música.
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Ontem, ao acompanhar mais uma eleição brasileira, pensei especialmente nisso. Na quantidade de pessoas que lutaram para que pudéssemos exercer um direito que, de tão cotidiano, às vezes parece garantido para sempre. Nas gerações que cantaram sobre liberdade sem saber quando poderiam vivê-la plenamente. E na responsabilidade que temos de não transformar suas conquistas em lembranças distantes.
Porque a democracia exige muito mais do que comparecer às urnas a cada quatro anos. Ela depende de participação, memória, instituições e da disposição permanente de defender direitos, inclusive quando os resultados políticos não correspondem às nossas preferências.
Talvez seja por isso que continuamos voltando àquelas canções. Elas nos lembram que a história não começou conosco, que nenhuma conquista é irreversível e que a esperança, quando compartilhada, pode se transformar em mobilização.
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◆ O Brasil aprendeu a cantar a democracia ◆ muito antes de conseguir exercê-la plenamente.
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E, pelo visto, ainda temos muito o que cantar.
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