Lado B

A Viola como Resistência, Mutirão e Identidade: Um Papo com Chico Lobo

Edição 006 · · Lado B


Autor

Lucca de Paiva

Lucca de Paiva

Fundador e presidente da Rabizo. Multi instrumentista, produtor musical e compositor, também é criador de grandes eventos no Brasil de música Pop, Rock e Eletrônica. Além da música, Lucca também é especialista em produto, palestrante e mixólogo.

Lado B by Lucca de Paiva

Sextou com um Lado B muito especial! Eu tive a honra de bater um papo com o meu grande amigo e mestre Chico Lobo. Nada de "só mais uma", aqui falamos do Lado B mesmo e de coisas que nem sempre são debatidas em entrevistas. Se liga em como o bate-papo ficou histórico.

by Lucca Paiva
Papo com Chico Lobo
Lucca

Para começar, Chico, o que a viola representa, não só pra você, mas para a cultura e todo o povo brasileiro? E o que ela deveria representar na música atual e não representa?

Chico Lobo
Chico Lobo

"A viola é, antes de tudo, o pilar da música popular brasileira. Ela foi o primeiro instrumento trazido pelos colonizadores portugueses, a viola de arame, instrumento de 5 cordas duplas. Ao chegar aqui, foi usada pelos jesuítas na catequização, se fundiu com os ritmos e cantos dos povos indígenas e, mais tarde, com a matriz rítmica dos negros escravizados. Quando o acordeão, o piano e a música urbana ganharam os grandes centros, a viola se interiorizou, foi para o sertão e lá virou guardiã da memória do nosso povo. Hoje, infelizmente, a mídia tradicional e a indústria imediata tratam a viola como algo periférico, folclórico ou ultrapassado, quando na verdade ela é o tronco primordial de quem nós somos."

Chico também complementa sobre as diferenças entre as violas e afinações (como Rio Abaixo e Boiadeira). Ao migrar para o interior do país, especialmente no Sudeste e Centro-Oeste, a viola tornou-se a grande narradora da vida rural e das comunidades. Apesar dessa relevância fundacional, a historiografia do consumo de massa no Brasil tendeu a marginalizar o instrumento a partir da metade do século XX com a consolidação do rádio comercial e da indústria fonográfica focada no consumo urbano imediato.

Hoje em dia existe um nicho que mantém a viola viva e os cantores regionais. Grandes nomes como Almir Sater e Renato Teixeira, e a gravadora Kuarup. Chico se coloca na lista de quem atua ativamente na preservação da cultura, tanto que levou a viola para o mundo, passando por países como Portugal, Itália, China e pelas Américas.

 
Chico em Show
Lucca

Quando falamos em "sertanejo" hoje, as pessoas pensam imediatamente no sertanejo universitário e no mainstream. Se a viola e a música caipira são tão vitais para a identidade do país, por que elas ocupam um espaço tão reduzido na cultura de massa?

Chico Lobo
Chico Lobo

"O que se chama de "sertanejo" no mercado de massa hoje não vem do sertão: é uma música pop que roubou e se apropriou do nome sertanejo. Não tenho nada contra o entretenimento mainstream ou contra quem faz essa música, mas existe um abismo entre o produto comercial e a música de raiz. A música tradicional fala do campo que alimenta, da agricultura familiar, da água, da terra e do afeto. Já a indústria atual é financiada pelo agronegócio de grande escala, voltado para a exportação. O mecanismo de exclusão é o mesmo "jabá" do passado: hoje investe-se milhões para monopolizar as playlists de streaming, as rádios e os palcos dos grandes festivais. A música do coração e da alma, que exige escuta atenta, acaba suplantada pelo produto de consumo rápido e descartável."

Chico também comenta sobre as músicas de hoje que são feitas para consumo instantâneo e rápido, sem exigir pensar e refletir. Também comenta que o sertanejo mainstream é uma propaganda do agronegócio, que, diferente da agricultura familiar (que é o que alimenta o Brasil), tem foco em aumento do PIB, negociações internacionais e economia. Mas o poder financeiro vem justamente do agronegócio, que patrocina grandes festivais e domina o topo das plataformas.

Chico Lobo
Chico Lobo

"Mas a cultura continua viva, por exemplo, com as orquestras de viola, que são alfaiates, padeiros e pessoas da colheita que se juntam para cantar e tocar viola e as modas de viola. Em novelas, tivemos viola em Pantanal e A História de Ana Raio e Zé Trovão. Eu criei os meus três filhos com a viola, não existe outra fonte de renda. O meu pedido para o mercado é simples: apenas me deem espaço, deem espaço para a viola."

 
Lucca

Você sempre comenta em entrevistas sobre a inovação da sua música para a atualidade sem perder as suas raízes. Até que ponto é possível modernizar e o que é mais importante preservar?

Chico Lobo
Chico Lobo

"A música caipira por si só existe como um patrimônio. Agora a música popular, ela é dinâmica. O que não significa que a música caipira vai acabar, porque, igual eu falei, ela permanece viva nas comunidades. Então, o que é a modernização? Você falou uma coisa muito importante, Lucca, tem uma metáfora que eu sempre uso: só podemos ter um tronco forte, uma copa frondosa, cheia de galhos e folhas que é a música popular brasileira, se a raiz for profunda. Então, como eu modernizo? Fazendo com que outros instrumentos dialoguem com a viola, como percussão, sopro e artistas de outras vertentes. No meu próximo álbum tem a presença de Leila Pinheiro, uma das vozes mais conhecidas da bossa nova, Fernanda Takai e John Ulhôa do Pato Fu, e Humberto Gessinger do Engenheiros do Hawaii. Só que mesmo com todas essas pessoas e instrumentos não existe quem escute o álbum e não fale que aquele é um álbum de viola."

Chico também faz uma crítica que sempre repete aos colegas de nicho: a de que a viola não pode ficar fadada a ser associada ao porquinho, à galinha, à cerquinha. Ela é muito maior do que isso. Quando você mantém a verdade da raiz, pode tocar com qualquer instrumento e viajar o mundo, que as pessoas vão ouvir e dizer: é um disco de viola!

Ao longo de seus mais de 30 anos de carreira e 35 álbuns lançados, Chico Lobo tornou-se uma das pontas de lança no movimento de libertação estética da viola. Em vez de limitar o instrumento aos temas estritamente rurais, incorporou influências do rock, do pop, da bossa nova e do alternativo. Essa versatilidade dialoga com a própria história da viola em outras regiões do país, como o Mato Grosso e o Nordeste, onde o instrumento adaptou-se a ritmos como o chamamé, o rasqueado, a ciranda e o coco.

Lucca

Legal ver o envolvimento que você traz e como não fica travado em um método único ou um único modelo. O que a viola e a música caipira conseguem comunicar de forma tão singular que nenhum outro instrumento consegue, mesmo dialogando juntos na música?

Chico Lobo
Chico Lobo

"De cara, a viola passa toda uma identidade de pertencimento. Não tem como você tocar ou ouvir sem despertar alguma memória sua, do seu pai, do seu avô, do passado, da família. Depois, é a riqueza musical que a viola tem. É um instrumento de tanta personalidade que consegue atravessar desde o Nordeste até o Sul do Brasil. A viola comunica de uma forma diferente, porque ela também carrega história. Da mesma forma, por exemplo, que o rap, o hip-hop e o funk falam de forma muito única e individual das realidades da periferia, da falta de acesso, etc."

 
Chico Lobo
Lucca

Todo mundo que conhece o mínimo que seja sabe que a música caipira é muito ligada à vida cotidiana, ao trabalho, à terra, mas principalmente às relações comunitárias. Eu queria que você comentasse um pouco do que você e a sua empresa, a Viola Brasil, têm feito para as relações comunitárias e projetos sociais.

Chico Lobo
Chico Lobo

"A viola nasce do "mutirão", que é a reunião de várias famílias no período de colheita. De um lado você tinha pessoas que tinham fartura e, na mesma comunidade, uma outra família em que a colheita não tinha dado muito certo. E as famílias se uniam e se ajudavam. No final, tinham as festas que aconteciam ao redor da viola. Esse sentimento de compadrio e solidariedade se mantém até hoje. No meu trabalho, minha preocupação é recuperar a identidade com o tempo e com os jovens. Temos um projeto em São Tiago em parceria com o SicoobCredivertentes, no Campo das Vertentes, onde ensinamos aproximadamente 30 crianças a tocarem viola, gratuitamente. E esses alunos de fato tocam nas festas locais, em folias. Um tempo atrás, quando eu fazia palestras em escolas, teve uma aluna que assistiu a uma apresentação e, dias depois, fiquei sabendo que ela dizia ter vergonha do pai por vê-lo tocando pela cidade; mas ela me ouviu chamá-lo de mestre e, nesse dia, disse com orgulho: "agora sei que sou filha de um mestre!". Aqui vemos um papel claro de devolver dignidade e identidade para as pessoas."

O termo "mutirão" (derivado do tupi motirõ, que significa "trabalho em comum") e a instituição do "compadrio" eram as estruturas de proteção social informal no Brasil rural, onde o Estado e o capital não chegavam. No campo das artes, essa dimensão pedagógica é mantida ativa por projetos como as Orquestras Regionais de Viola espalhadas por Minas Gerais e São Paulo. Formadas por padeiros, alfaiates, agricultores e estudantes locais, essas orquestras atuam como centros de preservação da memória oral e transmissão intergeracional do conhecimento.

 
Lucca

Chico, estamos agora em um momento tenso no país, principalmente neste momento eleitoral, onde vivemos ataques à cultura e às políticas culturais no Brasil. Não só na música, mas também no cinema, teatro e literatura. No meu entendimento, a viola me parece resistência! Como é pra você ser um músico em um momento como esse e que cuidados tomar?

Chico Lobo
Chico Lobo

"No Mato Grosso do Sul, temos a história da violeira Helena Meirelles, que foi proibida pelo pai e pela família de tocar, fugiu de casa e foi tocar em puteiros para fazer a vida. Enfrentou o preconceito de um mundo extremamente violento e machista e se tornou uma das maiores mestras da viola no mundo. A resistência não é só no palco, é nas ações cotidianas. Não escondo meus posicionamentos, mas, antes de tudo, resisto nas atitudes."

Chico exalta e valoriza a Angela Lopes, produtora do Chico há mais de 30 anos, esposa e parceira na condução da Viola Brasil. Também comenta que por 18 anos mantiveram programas de rádio e TV dedicados à viola sem ganhar um tostão, mas dedicados a abrir espaço para novos violeiros e para a música de raiz.

Chico Lobo
Chico Lobo

"O artista não pode se deixar dominar pelo ego ou pela vaidade. Quando faço um show, faço questão de promover rodas de conversa antes ou depois, ouvir as pessoas, ter trocas sinceras e reais. O amor é um ato revolucionário e difícil. Se fosse fácil, seria paixão. Amar com dedicação uma causa cultural por décadas exige coragem. Quando subo ao palco, todos podem ter certeza de que ali canto a minha verdade de coração aberto."

 
Lucca

Pra finalizar, pra quem leu esse bate-papo e não te conhece: qual música sua você indicaria (uma única) para ser a primeira para a pessoa conhecer o seu trabalho?

Chico Lobo
Chico Lobo

"Eu recomendaria "Maria", que nem sou eu que canto, mas é uma música com uma das maiores cantoras de todos os tempos, Maria Bethânia. É do álbum Viola de Mutirão. Ter a honra de ver uma das vozes mais sagradas do nosso país interpretando uma composição minha acompanhada pela minha viola não é para qualquer um."

A parceria entre Chico Lobo e Maria Bethânia começou em 2015, quando a cantora baiana conheceu e gravou a canção "Criação", de autoria do violeiro. Anos mais tarde, no álbum Viola de Mutirão (lançado pelo selo Kuarup), Bethânia emprestou sua voz marcante para a faixa "Maria".

Livros  
Maria
Chico Lobo, Maria Bethânia
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Antes de finalizar, eu disse essas mesmas palavras para o Chico na nossa conversa: eu, por mais que venha de uma família de músicos (avô sanfoneiro, avó cantora, primo e tio multi-instrumentistas), nunca tive um contato tão puro com a história do Brasil como tive com o Chico Lobo. Ele e a Angela, que me adotaram por meses na pandemia para não me deixar sozinho em um momento tão isolado, me mostraram um universo gigante de cultura que eu nunca tinha tido oportunidade de acessar antes.

O Chico sempre se interessou pela minha música, acompanhou apresentações ao vivo minhas, como o dia que foi o único cara mais velho num mar de jovens em uma apresentação de música eletrônica, me deu a oportunidade de ser o diretor de quatro grandes lives pioneiras na pandemia e de participar ativamente do lançamento do álbum Alma e Coração, que contém uma das minhas músicas favoritas dele, "Povos da América".

Esta entrevista não existe porque eu "devo" algo a eles, mas sim porque, em todo esse tempo, pude ver que a arte e a música falam mais alto quando impactam a vida das pessoas, e eles merecem reconhecimento por isso. Ao Chico e à Angela, meu muito obrigado! Vocês me moldaram como músico de uma forma como nunca tinham feito antes.

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A gente se vê semana que vem!