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O cinema brasileiro nunca esteve em cima do muro.
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A ideia de que "arte e política não se misturam" não dura muito tempo quando a gente olha para a história do cinema brasileiro. Desde os primórdios até a era dos streamings, fazer filmes no Brasil sempre foi um ato político.
Nossas histórias registraram revoltas, ditaduras, desigualdades sociais e os sonhos de um país plural. Dá pra acompanhar a história do país só olhando pra como o cinema nacional foi filmado, financiado e censurado em cada época:
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Cinema Novo (anos 60)
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Nos anos 60, o Cinema Novo colocou o Brasil diante de um espelho. Glauber Rocha e outros cineastas queriam mostrar um país marcado pela desigualdade, pela fome e pela violência sem tentar deixar tudo mais bonito para o público.
A chamada “estética da fome” nasceu nesse contexto. É dessa época que surgiram clássicos como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “Terra em Transe” (1967), filmes que não estavam interessados apenas em contar histórias, mas em provocar quem estava assistindo.
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Ditadura, Cinema Marginal e Pornochanchada (anos 70)
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Com a censura da ditadura, os cineastas precisaram inventar saídas para driblar o sistema. De um lado, o "cinema marginal" respondia à repressão com uma estética suja, caótica e irônica, que funcionava como um deboche visual escancarado do autoritarismo. Do outro, a pornochanchada dominava os cinemas da Boca do Lixo, em São Paulo, e por trás do disfarce das comédias eróticas encontrava formas de satirizar a hipocrisia burguesa e a caretice moral dos generais.
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Colapso e Retomada (anos 90)
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A situação desanda ainda mais em 1990, quando o governo de Fernando Collor extingue a Embrafilme e o Ministério da Cultura, fazendo a produção nacional despencar de dezenas de filmes por ano para quase zero.
O setor só consegue se reerguer graças à articulação de profissionais da área junto ao Congresso, resultando na criação da Lei Rouanet (1991) e da Lei do Audiovisual (1993), que inauguram o sistema de incentivo fiscal via renúncia de impostos. Nessa época nasceram clássicos como Carlota Joaquina (1995) e Central do Brasil (1998).
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Ancine e cinema de denúncia social (anos 2000)
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Para dar conta de um mercado que pedia mais profissionalização, a Ancine surge em 2001. É a fase em que o cinema ganha uma força impressionante através de marcos como Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007). Assim como o Cinema Novo, aqui os filmes são ferramentas de denúncia, dessa vez contra a violência urbana, a desigualdade e a ausência do Estado.
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Cortes e crise institucional (2019–2022)
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Depois, entre 2019 e 2022, o setor voltou a enfrentar um período de instabilidade. O Ministério da Cultura deixou de existir como ministério, houve dificuldades na execução de recursos e a Ancine passou por mudanças e questionamentos sobre sua atuação.
Em 2021, o incêndio na Cinemateca Brasileira, que destruiu parte importante do acervo, acabou se tornando um dos símbolos mais marcantes daquele período.
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Reconstrução (2023)
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A partir de 2023, as políticas para o setor começaram a ser retomadas. O Ministério da Cultura voltou a existir e novos recursos foram direcionados ao audiovisual. Entre 2023 e 2025, os investimentos anunciados para o setor ultrapassaram R$ 5,7 bilhões.
O resultado dessa retomada aparece não só nos créditos finais dos filmes, mas na repercussão internacional gigantesca de produções recentes, como a vitória histórica de Ainda Estou Aqui (de Walter Salles) no Oscar e a indicação de O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho).
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E o que eu tenho a ver com isso? Você pode estar pensando.
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Olhando para essa linha do tempo toda, a conclusão é bem direta: sem políticas públicas, o cinema brasileiro simplesmente não sobrevive e as decisões tomadas fora das salas de cinema acabam chegando, de um jeito ou de outro, até elas.
Em um ano eleitoral, talvez valha incluir mais uma pergunta na hora de conhecer as propostas de um candidato: o que ele pretende fazer pela cultura e pelo audiovisual?
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