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Em 1985, a Margaret Atwood publicou O Conto de Aia, uma história em que os Estados Unidos deixam de ser uma democracia e viram uma teocracia chamada Gilead, depois de uma sequência de crises econômicas, ambientais e políticas, com a taxa de fertilidade despencando e um grupo religioso extremista aproveitando o medo para tomar o poder.
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E, como quase sempre acontece, as mulheres são as primeiras a perder direitos, na história elas são proibidas de trabalhar, perdem o controle sobre o próprio dinheiro, e algumas são obrigadas a gerar filhos para as famílias da elite. (pois é)
O que mais me assusta nessa história é que a Atwood criou uma regra para si mesma, a de que nada no livro podia ser inventado do zero, tudo precisava já ter acontecido em algum lugar do mundo, e ela mesma contou isso num ensaio no New York Times, em 2017.
Aulinha de história rápida agora, só pra você entender o paralelo com a realidade:
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No Irã, depois da revolução de 1979, as mulheres perderam direitos de forma bem rápida: a Lei de Proteção da Família, que limitava a poligamia e dava às mulheres mais direitos no divórcio, foi anulada, as juízas foram afastadas dos tribunais, algumas áreas de estudo nas universidades foram restringidas, e o véu, que no começo era uma pressão social e política, virou obrigação legal, com punição prevista para quem aparecesse sem ele em público.
Na Romênia, o ditador Ceaușescu decidiu que a população precisava crescer, então em 1966 proibiu o aborto e restringiu os anticoncepcionais, e chegou a submeter mulheres em idade fértil a exames ginecológicos obrigatórios no trabalho, com o resultado de que milhares delas morreram em abortos clandestinos, segundo pesquisadores.
Já na Argentina, durante a ditadura de 1976 a 1983, mulheres presas políticas davam à luz em cativeiro e os bebês eram entregues a outras famílias, e as Avós da Praça de Maio estimam cerca de 500 casos, dos quais mais de 130 já descobriram a própria identidade.
O curioso é que, depois que o livro saiu, a realidade continuou rendendo paralelos parecidos, como o caso do Afeganistão, que com a volta do Talibã ao poder em 2021 veio acompanhada da proibição das meninas nas escolas e universidades, e depois a restrição ao trabalho.
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A realidade brasileira é muito diferente da sociedade criada por Margaret Atwood, e fazer essa comparação seria simplificar uma questão muito mais complexa. Mas talvez a ficção possa nos ajudar a fazer uma pergunta antes de escolher:
Quais direitos você considera fundamentais, independentemente de quem esteja no governo?
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