Com quase 100 anos de história, os Looney Tunes são parte fundamental da cultura pop. Os personagens nasceram nos curtas exibidos nos cinemas a partir dos anos 1930 e atravessaram as décadas transformando violência cartunesca, absurdo e timing cômico em arte. Depois, ganharam longas que misturavam animação e atores reais, como Space Jam (1996), Looney Tunes: De Volta à Ação (2003) e Space Jam: Um Novo Legado (2021).
Willie Coyote sempre roubava as cenas nos filmes anteriores, mas ele finalmente ganha o protagonismo em
Coyote vs. Acme
. Já retratada como vilã em De Volta à Ação, a ACME fabrica praticamente tudo no universo dos Tunes: os foguetes, as armadilhas e todas as engenhocas usadas pelos personagens. Cansado de sofrer acidentes por causa de produtos defeituosos, o Coyote contrata um advogado fracassado para processar a empresa.
O filme deveria ter estreado em 2023, mas a Warner não acreditou em seu potencial nas bilheterias e decidiu que seria financeiramente mais vantajoso apagá-lo em troca de benefícios fiscais.
Durante 3 anos, Coyote vs. Acme permaneceu trancado em um cofre
, até que fãs, artistas e profissionais da indústria se revoltaram e transformaram seu cancelamento em um dos casos mais absurdos da Hollywood recente. A pressão funcionou: a Ketchup Entertainment comprou os direitos e finalmente o libertou.
É aqui que tudo ganha uma força quase catártica: um filme sobre um personagem pequeno e desacreditado enfrentando uma corporação gigantesca que tenta silenciá-lo por dinheiro quase foi, ele própria, apagado por uma corporação gigantesca por causa de dinheiro.
A Warner tentou fazer com o filme exatamente o que a ACME faz com o Coyote
. É uma metalinguagem involuntária tão perfeita que eleva e ressignifica o longa inteiro.
Fofo, divertido e surpreendentemente emotivo, o longa entende que os Looney Tunes funcionam melhor quando o absurdo possui regras próprias. As perseguições recuperam o ritmo e a criatividade dos curtas clássicos, enquanto a mistura de animação 2D com live-action é usada de maneira inventiva. Há MUITAS referências e easter eggs para quem conhece as desventuras do Papa-Léguas.
Mais filosófico do que sua premissa sugere, Coyote vs. Acme fala sobre fracasso, perseverança, dignidade e o direito de enfrentar estruturas muito maiores do que nós. Também aborda exploração corporativa, consumismo e até experimentos em animais, mas sem extrapolar, interromper a comédia ou transformar tudo em sermão. A crítica especializada destacou justamente esse equilíbrio entre o humor clássico, a criatividade visual, a emoção e assuntos contemporâneos. Valeu a espera e TODO o esforço necessário para salvá-lo. Se fizer sucesso, que venham mais filmes dos Looney Tunes!